Marcello Fontan : O Reacionário Rodrigueano

Marcello Fontan : O Reacionário Rodrigueano

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Foto sem data Nelson Rodrigues, fumando.

Sobre Nelson Rodrigues só é possível estacar: Reacionário – assim mesmo, grafado com o R heráldico. Em uma de suas entrevistas a Otto Lara Resende, colega de profissão nas redações e em publicações literárias, Nelson, com a voz morosa, a calça metida nos sovacos, presas por um suspensório e a mão a sacudir à frente da cabeça, disse: “jovens, envelheçam”.

Ele se dizia detentor de uma “ignorância enciclopédica”, até chegar aos 40 – idade de transição de sua juventude à velhice. Nos dias de hoje, a conjuntura dos fatos se mostra pelo avesso. A velhice, na entrevista citada, é quando o homem alcança a plenitude de discernimento. Porém, hodierno, apresentam-se os jovens como os novos condutores da geração atual – ruidosa pelo esoterismo, pelo politicamente correto e pelo senso inumerável de empreendedorismo precoce. Além de ser extremamente digitalizada.

Seu interesse, parcialmente, se restringia ao cotidiano.  À velhice cabe-se a sabedoria. Como poderia ser Nelson Rodrigues nos dias de hoje?

Talvez não exista cenário possível. O axioma “nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais, porque as neuróticas reagem” soaria como um enunciado machista, provavelmente, a ponto de ruir pela censura social dos politicamente corretos. “O contínuo de si mesmo”, como costumava dizer ao Jabor – cineasta, escritor e jornalista – poderia soar talvez, se fosse engenhada nos dias atuais, hiperbólico e lerdo, como se no lugar da voz, soasse um mugido bovino ao pronunciá-lo.

As prateleiras, outrora, de livros clássicos e autores renomados, cederiam espaço a frases sintéticas de Clarisse Lispector, Shakespeare, Machado, entre outros.

Seus 80 cigarros fumados diariamente, seriam substituídos por barrinhas de cereal light; e suas incontáveis doses de café se converteriam em diuréticos para emagrecimento e definição corporais. As enormes rugas, expostas em seu rosto, que punha na conta muito mais anos do que realmente havia aniversariado, seriam retiradas, pelo botox. E a sua enorme papada, também, obliterada por uma cirurgia plástica.

Os textos rodrigueanos, com expressões originalíssimas seriam mais populares do que o normal. Aparamentadas, supostamente, por abreviaturas escalafobéticas.

Aos esquerdistas, Nelson poderia até tentar dizer: “que boa besta era o Marx” – frase de uma de suas entrevistas ao periódico carioca Última Hora, de Samuel Weinner – mas não serviria muito, já que besta já não serve nem como palavrão, ainda mais a partido político. A sociedade contemporânea do Facebook usa-se de ofensas mais acachapantes e unânimes. O que não é bom, pois, lembre-se: “toda unanimidade é burra”.

Mas, também, quem sabe, Nelson não seria o mais reacionário dos homens, porque, querendo ou não, foi o único dramaturgo a ter seis obras entrevadas pela censura, pelo tom ferino de suas histórias. Uma prova de que Nelson Rodrigues não era tão retrógrado quanto os que se dizem a favor da “volta da ditadura”, ou que atribuem a um governo apenas as mazelas de um país.

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