A CAJARANA por Mário Rubial

A CAJARANA por Mário Rubial

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Vou contar uma historinha. Verdade, verdadeira.

Eu e o José Maruilson Costa, o Maru, somos amigos há mais de 40 anos.

Ele é nordestino de Marcelino Vieira, RN, cidadezinha com cerca de 9.000 habitantes e veio para Sampa pelas mãos do seu padrinho. E por aqui ficou, constituiu família, já tem netos. Mas jamais esqueceu suas origens.

A cada 2 ou 3 anos, voltava a Marcelino Vieira para visitar seus pais, “seu” Zé Bernardino e D. Antonia. E como sempre, mencionava meu nome e nossa grande amizade. E começou a despertar nos pais a curiosidade em me conhecer. Referiam-se a mim, como bichinho. Eu disse…bichinho!

– E aí Maru, quando é que você vai trazer o bichinho, dizia Zé Bernardino.

– Vou fazer uma buchada caprichada para o bichinho, completava D. Antonia.

Passaram-se os anos e lá por volta de 2004, disse ao Maru:

– Na sua próxima viagem a Marcelino Vieira, vou também.

E assim foi feito.

Foi num mês de junho, onde as festas juninas têm uma grande projeção no nordeste.

Chegamos no aeroporto de Fortaleza – que é o mais próximo de Marcelino Vieira – e já fomos recebidos pelos parentes do Maru. Com latinhas de cerveja, aquela cachaça da “boa” e… bom, daí prá frente, pouco lembro.

Chegando na casa do “seu” Zé Bernardino, a festa continuou. E foi assim durante os dez dias que lá permaneci.. Mas aí…

Mas aí, teve um acontecimento que marcou minha vida.Um certo dia, papeando com o Zé Bernardino e o Maru, começa aquele papo de botequeiro. A melhor cachaça, o melhor tira-gosto, o melhor boteco, e por aí vai. Até que o Maru – “maledeto” – sugere ao pai:

– Eita, vamos levar o bichinho na venda do Zé. Assim ele pode conhecer a melhor cachaça de Marcelino Vieira.

“Seu” Zé Bernardino era aquele sertanejo típico: poucas palavras, olhar sábio e sapeca e que, quando sorria, era “de canto de boca”.

Lá chegando, Zé Bernardino ordena:

– O fulano, pega lá aquela Pitu. A do fundo da prateleira. A que está coberta de poeira e traga aqui.

E pro menino que estava na rua gritou:

– Moleque, vá lá pegar um punhado de cajarana.

E começou a função. Pitu misturada com cajarana.

Pensei:

– Vou dar um cacete no velho Zé Bernardino. Vai aprender a não se meter com paulista. E além do mais, com um botequeiro profissional, como eu.

Após uma hora de função etílica, fomos almoçar. Saí da bodega, escorado no ombro do Maru, prá não cair. Disfarcei ao máximo minha bebedeira.

Chegando em casa, D. Antonia, com aquele singelo sorriso de mãe disse:

– Ô bichinho, vais comer a melhor buchada de bode da sua vida.

O estômago começou a virar. Imaginem um paulista, acostumado com filé mignon, sopinhas e  massinhas, partir para uma buchada? E de bode?

Olhei para o Maru e disse:

– Mano véio, me salve. Mas sem magoar D. Antonia, por favor.

Após um tempo que já nem lembro quanto, estava diante de uma canja, feita com a legítima galinha caipira, própria para paulistas metidos a botequeiros.

Os historiadores não registraram mas, na guerra entre São Paulo e Marcelino Vieira, estes últimos venceram.

E munidos apenas de 1 garrafa de Pitu misturada com um pouco de cajarana.

Quem for a Marcelino Vieira, vá ao bar do Zé. Fica na Praça da Prefeitura. Não tem erro. E peça para contarem as histórias do “seu” Zé Bernardino. Ele, que está no céu, vai morrer de rir. Com o canto da boca.

FRASE DE BOTECO

“Na realidade, basta um drinque para me deixar mal. Mas nunca sei se é o 13º ou 14º.” (George Burns – ator e escritor americano)

Mário Rubial é Jornalista e escritor

3 COMENTÁRIOS

  1. Marinho, pede pro “Baianinho” contar a história do sujeito que comeu uma buchada de bode e começou a suar. Ao que seo Zé Bernardino ao ver o cabra transpirando comentou de lado: “Tá botando o espírito”…

  2. Marinho, pede pro “Baianinho” contar a história do sujeito que comeu uma buchada de bode e começou a suar. Ao que seo Zé Bernardino ao ver o cabra transpirando comentou de lado: “Tá botando o espírito”…

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