Um homem só

Um homem só

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No lotação é uma delícia só: o povo em êxodo constante de um canto a outro. Explico-me pelo “êxodo”: parece que todos eles desejam estar logo em um lugar num ritmo de quem foge de outro. Nunca tive chance de contar isso a eles. Nunca me deram ouvidos. Também, como sou tolo. Pareço prolixo. Que seja! Sei que gostam de mim, pois gosto de todos ali. Sei o nome de todos. Muita vez ainda chego a contemplá-los como se discorrêssemos em longas conversas. Sabe-se muito um do outro assim.

Há no lotação que eu pego todas as manhãs um senhor, muito aprumado. Às nove horas em ponto, ele já está no ponto de atalaia. Se o motorista se atrasa, ele ainda reclama. Mas logo se vê: ele se sobe ao auto. Apesar de apavonado, o velhinho não tem um tostão furado para carregar no bolso. Nota-se que diz que vai ao trabalho – paixão saudosa de outrora – e uns quatro pontos depois, ele desce e fica a pedir cigarros na rua até o dobrar dos sinos, numa catedral próxima dali, “já são seis horas”, sussurra. Então revolve ao ponto e desce no mesmo lugar, onde esperava o ônibus de manhã. Sei que ele perdeu a mulher uns tempos atrás. Não, ele nunca me confidenciou. Sei por uma foto que sempre carrega na carteira. Eu fico ali no ponto, sentadinho, à espreita, às oito horas, quando ele chega pontualmente para se arrastar, o resto do dia, em sua rotina severa. Ele sempre pega a foto, observa-a cabisbaixo e, tenho certeza, correm ali duas lágrimas perdidas. Não mais que isso. A esposa era querida, e ele se conforma todas as manhãs de sua morte. Quando o vejo ainda, no mesmo lugar, a premer a mão à altura do fígado, logo entendo de suas bebedeiras de véspera em véspera, todos os dias. “Vai elegante ao trabalho, hein, meu senhor”, penso em falar, mas nunca o faço. Ele sempre me olha de um jeito, como se eu não precisasse dizer nada, apenas ficasse ali, a lhe fazer companhia. Isso compraz ao velhinho, eu percebo.

Coisa engraçada é que no lotação ninguém se fala ou cumprimenta. Todos ficam com a cara metida num canto, ou comendo, ou lendo livros rasos, ou tagarelando. Mas, ainda assim, é estranho, porque eles podem até se falar, e tudo o que se ouve se resume a si próprio – fica o par de pessoas conversando, porém de forma particular e ensimesmada, um com o outro. Como se um falasse de seus problemas pessoais em casa, no trabalho, e o segundo respondesse com uma anedota em que dissesse levar o gato ao veterinário por se engasgar com uma bola de pelo. Mas é raro se ouvir qualquer barulho de prosa. O mais das vezes, todos ficam com a cabeça metida no chão, com os olhos fixos num canto. Olhando para a própria barriga. E eu permaneço quieto, como se dissesse bons dias, pedisse licença, emendasse conversa, falasse de qualquer coisa. Então desço em minha paragem e sigo meu rumo. Gosto de andar. Vou até o fim da cidade e, quando pretendo voltar, já não tenho mais como ir para casa, senão andando. Não me importo, pelo caminho encontro-me com minhas melhores amigas, as casas, ou espero sentado num fio de sarjeta, ou no terminal à espera da carona pública – os ônibus. São solitárias as noites ali. Há por lá meia dúzia de pingueiros que fazem dos assentos a sua morada, com uma cama forrada a jornal. Subi no lotação e fui embora. Dessa vez, eu não notei nada em volta. Estava com os olhos vidrados num canto. Algo bobo e triste.

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