O PIOR DIA DE NOSSAS VIDAS por Fausto Camunha

O PIOR DIA DE NOSSAS VIDAS por Fausto Camunha

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No dia 20 de setembro de 1997, um sábado,  estávamos em casa eu, minha mulher Lidia e o nosso filho Fausto Eduardo. Ele havia dito pra mim que não ia sair. Preferia assistir ao jogo Corinthians e Grêmio de Porto Alegre. Às 10 e meia da noite entra no meu quarto e  diz que mudou de ideia. Eu sabia o motivo, mas ele não falou: o Corinthians estava perdendo o jogo e o meu filho,  um corintiano  fanático. Perguntei se ele tinha dinheiro, disse que sim.

– E aonde você vai?

– Vou rodar até acabar a gasolina.

E saiu. Eu ainda ouvi a porta da garagem fechando. Às 6 e meia da manhã, já no domingo (21), toca o telefone. Era um policial militar perguntando se eu era o pai do Fausto Eduardo Russo Camunha. Confirmei e me pediu para ir imediatamente até a avenida Vicente Rao.

– Mas, o que aconteceu?

– É melhor o senhor vir até aqui.

Quando chegamos, eu e minha mulher, vimos a pior cena das nossas vidas. Nosso único filho jazia, ainda no volante do carro, que havia batido em um poste.  Esse é aquele momento que a gente não consegue raciocinar e muito menos tomar alguma providência. E é o momento em que a gente fica de mal com Deus.

Não demorou 15 minutos e já estavam chegando parentes e amigos para nos socorrer.
O Fausto Eduardo tinha 24 anos e faria 25 no mês seguinte, outubro, no dia 31. Trabalhava comigo, era muito alegre,  brincalhão e solidário. Estava pronto para ajudar a quem precisava. Por estas e outras tantas qualidades, era muito querido por todos que o conheciam.

Mesmo tendo passado tantos anos – 18 anos – a dor da perda permanece, porque foi embora com ele um pedaço de cada um de nós. Não passou um dia sequer que ele não tivesse sido lembrado. Fizemos tratamento  psiquiátrico durante os dois primeiros anos, até porque sem ajuda profissional fica muito mais difícil tocar a vida e o processo de aceitação da perda é muito longo, talvez até permanente. Não é nada fácil nos contentarmos apenas com fotografias, bons momentos que passamos ou algumas peças de roupa que ainda guardamos e boas lembranças.

Em casa temos um espaço, só dele,  com 18 fotografias, em todas ele sorrindo muito, como que dizendo para não nos preocuparmos porque ele está bem. É o que a gente mais ouve quando procura um padre, um espírita, um pastor ou qualquer outro representante de Deus.

– Saudade sim, tristeza não – diz o padre.

– Vocês ainda vão encontrar-se com ele – diz o espírita.

– A hora dele tinha chegado – diz o pastor.

A verdade mesmo, nua e crua, é uma só. Perdemos o nosso único filho e não há nada que conserte isso. Mas, pelo menos agora já posso dizer  fizemos as pazes com Deus!

Tenho que registrar o conforto e apoio que recebi da família e dos amigos, no dia fatídico, na Missa de Sétimo Dia e nos dias seguintes. Tinha aprendido  que é nas horas difíceis que você conhece melhor as pessoas. E é verdade. Eu e minha esposa Lidia fomos embalados por carinho, atenção  e gestos de solidariedade que vinham de todos os lados, pessoalmente ou por telefone, de dia ou à noite, a qualquer hora, todos tentando preencher o vazio que tomava conta dos nossos corações.  Essas manifestações somadas à assistência profissional nos ajudaram a continuar tocando a vida, com altos e baixos, é claro, mas sem se entregar.

 

4 COMENTÁRIOS

  1. Fausto e Lídia!
    Nada pode consertar o coração de um pai e de uma mãe quando se perde um filho.
    Porém, somos todos iguais, e mesmo não sendo espírita, sabemos que todos nós morreremos um dia. Vivemos o suficiente para sabermos que não vamos compreender muitas coisas, muitos sinais, mas, constatamos que parece mesmo que cada um tem a sua hora certa para morrer.
    Existe algo muito mais forte que nós.
    Existe algo que rege tudo isso e que manda que seja assim.
    Não aceitar é não viver.
    E a vida é muito forte.
    Vamos lá! Sempre para a frente, buscando sermos melhores a cada dia.
    Lembramos constantemente, diariamente daqueles que nos deixaram, mas acredito que nossa energia ainda se encontrará com a deles.
    O amor une mais que a matéria, o Amor é mais que a presença física e amor não falta em vocês e isso nós sentimos isso quando estamos juntos, – e nossa amizade que mesmo não sendo diária, ela existe com as maiores e melhores vibrações. Somos AMOR e sendo assim… vamos vivendo dia a dia. E assim é que tem que ser. Amamos vocês!

  2. Como você sabe amigo Fausto,poucos dias após o acidente de seu filho, também perdi o meu filho mais velho,Fernando Augusto,por coincidência também em acidente de carro.Esta coincidência nos tornou grandes amigos,vocês ai em São Paulo e eu aqui em Maceió.Outra coincidência é que eu você e Lídia Também ai em São Paulo Saímos para Jantar e nós sofremos um acidente em Agua Espraiada,porém saímos com vida.Todo este sofrimento ao menos terminou em uma verdadeira e sincera amizade.Tenho certeza que hoje eles estão juntos orando por nós e um dia estaremos com eles. Abração na Lídia.

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