EU, O METRÔ, O ÔNIBUS E ESSA GENTE ESTRANHA por Ivan...

EU, O METRÔ, O ÔNIBUS E ESSA GENTE ESTRANHA por Ivan Rodrigues

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Viajo todo dia de metrô. E mais um pedacinho de ônibus.  Nessas idas e vindas, não consigo ler, como muita gente faz. Mas espio de lado e, de vez em quando, vejo um título: ABC da Língua Portuguesa; Amor em 4 Aulas; Como transar sem gritar (a moça viu que eu estava bisbilhotando e botou o livro na bolsa); O Senhor das Moscas; Manutenção de Motocicletas; Dom Casmurro… E vai por ai. Um,  lê em pé, segurando a mochila e checando o whatsapp;  o outro,  lê cochilando…  Aliás, dia desses fiquei preocupado. O rapaz ia ouvindo música com o fone de ouvido, e balançava a cabeça, sorria, dançava com os ombros. Uma voz, de repente, saiu das paredes do carro: “temos problemas na linha 5, favor desembarcarem todos na próxima estação”.  O moço continuou encostado no banco, dançando ao som do fone. Todo mundo desceu, eu inclusive. A voz saiu da parede umas três vezes, e o moço – fiquei observando – não se levantou. Quis chamar o guarda, mas não deu tempo. O metrô seguiu em frente e nunca mais vi o rapaz.

Um senhor, bem na minha frente, tinha um sapato de cada cor;  a moça gesticulava e falava sozinha, alto, respondendo as conversas do celular; a funcionária que varre os carros sempre deixa um lixinho pra tras; o rapaz esfomeado comia um sanduiche de linguiça e enchia o vagão de cheiro, a senhora gorda entalada no banco… É assim todo dia.

Observo muito, também, o pessoal que lê os jornais distribuídos de graça nas estações. Nunca pego, porque sai tinta e suja as mãos. Mas acompanho os títulos, lendo de longe, olhando por cima do ombro dos passageiros, ou de rabo de olho. Muita gente acha que estou tentando paquerar… Gente desconfiada. Aí, mudo o rumo do olhar, checo minha bolsa, desvio pro teto, observo a janela. Mas é impossível não guardar algumas manchetes: 28 mil assassinatos em seis meses; Lula e Bolsonaro crescem nas pesquisas; Corrupção envolve Ministros, Senadores, Deputados, até o Presidente da República;  Gilmar desafia Supremo e Moro; Marginais e políticos, todos na mesma panela; Instituições comprometidas, nem Supremo fica de fora…

Desço do metrô e pego o ônibus.

Às vezes, demora uns 40 minutos. Às vezes, passam dois ônibus da mesma linha – um atrás do outro!  Normalmente, chegam bem cheios, com muitos idosos, e poucos jovens se levantam pra ceder o lugar. Não entendo porque esse pessoal mais velho sai tão cedo pra passear de ônibus, bem na hora do rush. Na porta do coletivo, a moça abraça a amiga:  — Nossa, muié, chegou atrasada, quase perde a viagem.  – Pois é, errei de novo, fui parar na puta que pariu!! Um pouco de empurra-empurra, um pisão no pé, e o jeito é se distrair lendo as mensagens do whatsapp. Lá se vão quase duas horas, desde que saí de casa. Mas pelo menos estou empregado!!

 

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