A longa odisseia pela Democracia – Ulisses Guimarães

A longa odisseia pela Democracia – Ulisses Guimarães

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Símbolo da resistência contra a ditadura e da luta pela Constituição de 1988, combatida pelos arautos do “mercado”, ex‑deputado deixou um legado político sem paralelo
Carol Arantes – São Paulo
Se é verdade que algumas pessoas vêm ao mundo predestinadas a cumprir uma missão, esse foi, seguramente, o caso de Ulysses da Silveira Guimarães, um dos homens públicos mais importantes do Brasil no século passado. Assim como o rei de Ítaca, do poema épico de Homero, ele também enfrentou uma odisseia: a luta incansável, nas águas turbulentas da ditadura militar, para que o país conquistasse as liberdades democráticas.
Primeiro dos cinco filhos do coletor federal Ataliba Silveira Guimarães e da professora primária Amélia Correia Fontes Guimarães, Ulysses nasceu em Rio Claro, interior paulista, no dia 6 de outubro de 1916. Estaria. portanto, completando neste ano seu centenário. Dividiu a infância e a adolescência entre o sonho da mãe de vê‑lo se tornar um pianista e o interesse pela política, alimentado nas conversas com o pai, um homem sensível às causas populares. Com o teclado, veio a paixão pela literatura, estimulada por Alzira, a primeira professora de piano.
A política, no entanto, haveria de se impor, naturalmente, na vida do ex‑deputado, que desde criança manifestava o dom da palavra. Em seu livro Dr. Ulysses, uma biografia, o jornalista A. C. Scartezini conta que o garoto costumava reunir os primos para exercitar a oratória. “Levava os meninos ao seu quarto, colocava‑os como plateia para ouvir os discursos que ia improvisando”.
Depois de formado na Escola Normal de Lins, onde a família se radicara, Ulysses embarcou para a capital e passou no vestibular para a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, no Largo de São Francisco. Enquanto estudava, dava aulas de latim e história em colégios da cidade. Nas folgas, frequentava a casa do escritor Mário de Andrade, de quem foi aluno de piano. Em 1939, ganhou o título de Maior Prosador das Arcadas em um concurso promovido pela Academia Paulista de Letras.
A POLÍTICA Após intensa militância estudantil, como vice‑presidente da UNE, no futebol, como presidente do Santos e como secretário da Federação Paulista de Futebol, ingressou na política no fim do Estado Novo. Elegeu‑se deputado estadual pelo PSD à Assembleia Constituinte de São Paulo, em 1947, e destacou‑se pela defesa dos municípios contra o excesso de arrecadação de tributos estaduais.
A projeção nacional veio em 1950, aos 34 anos. Eleito deputado federal, Ulysses conquistou assento em uma Câmara que tinha entre seus integrantes veteranos como Afonso Arinos, Benedito Valadares e Bilac Pinto. Juntamente com o baiano Antônio Balbino e os mineiros Lúcio Bittencourt e Tancredo Neves, atuou na Comissão de Constituição e Justiça da Casa. Vivenciou um dos períodos mais turbulentos da História republicana, que culminaria no suicídio de Getúlio Vargas, em agosto de 1954.
TRANSFORMAÇÕES O dia 2 de dezembro de 1954 marcou uma mudança profunda no perfil político de Ulysses Guimarães. Até então, como haveria de reconhecer mais tarde, fora um parlamentar inexpressivo, que vivia de pegar verbas e de fazer pequenos serviços para seus eleitores. Ele conta como aconteceu o estalo que mudaria sua trajetória, dentro de um Chevrolet preto, quando tinha 38 anos.
“De repente, tomei consciência do que fazia naquele táxi. Enfrentando o calor do Rio de Janeiro de quase meio‑dia, sobraçava minha pastinha de documentos para mais uma ronda pelos ministérios e repartições públicas, levando pedidos de prefeitos e eleitores. Naquele momento, decidi que não estava na política para ser um despachante, nem o Estado que eu imaginava tinha lugar para aquele tipo de política. Não importava que aquela fosse a medida de presunção brasileira da eficiência dos parlamentares. […] O que queria da política era coisa bem diferente. Nunca mais voltaria àquelas peregrinações”.
Em fevereiro de 1955, casou‑se com Ida de Almeida e Silva, a dona Mora, irmã de um amigo. Mora era viúva e tinha dois filhos: Tito Henrique e Celina, ainda crianças. Brincalhona, dona Mora fazia humor sobre o noivo na frente das amigas, às vésperas do casamento. “Fui casada com um homem bonito, elegante e rico. Não sei como será a vida com um homem feio, pobre e que não liga para a elegância”.
TRAIÇÃO Eleito presidente da Câmara dos Deputados no início do governo de Juscelino Kubitschek (JK), Ulysses começou a se articular para disputar, em 1958, o Palácio dos Bandeirantes, primeiro passo para alcançar o sonho de sua vida: a Presidência da República. Enquanto isso, ele comandava um Parlamento dividido – de um lado, PSD e PTB, partidos da aliança governista; de outro, a UDN e sua Banda de Música, bloco parlamentar assim chamado porque, embora em minoria, seus integrantes faziam muito barulho na Casa. A Banda era liderada por Carlos Lacerda. Ulysses integrava a Ala Moça do PSD – um grupo aguerrido de jovens deputados federais de posições nacionalistas e aliados do governo de Juscelino.
Por essa época, amargou uma traição de JK. Para fazer média com Jânio Quadros, candidato à sucessão à Presidência da República, Juscelino negou seu apoio a Ulysses, que acabou desistindo da candidatura. O episódio foi relatado pela esposa do ex‑deputado ao jornalista Jorge Bastos Moreno, que o transcreveu em seu livro A História de Mora – A Saga de Ulysses Guimarães. Dois anos antes, Juscelino estimulara Ulysses a disputar o governo paulista.
A DITADURA Foi a partir do golpe militar de 1964 que Ulysses viveu os três grandes momentos de sua carreira. Não sem antes se envolver em uma polêmica: a suposta adesão à ruptura institucional. Em seu livro O Governo Castello Branco, o ex‑senador Luiz Viana Filho conta que Ulysses, juntamente com alguns notáveis do Congresso, teria redigido uma proposta para cassar direitos políticos da cúpula janguista por 15 anos. Além disso, votara em Castello Branco no Colégio Eleitoral do Congresso para presidir o país.
“O doutor Ulysses morreu negando a participação naquele episódio. Atribuía isso a uma leviandade do Luiz Viana. Quanto ao Castello, ele foi eleito com os votos de praticamente todos os remanescentes do PSD. Naquele momento, Ulysses apoiou um presidente – ele mesmo repetia isso – cujo discurso de posse assinaria até hoje. Porque propunha a democracia, garantindo a sucessão pela via direta. Não era o discurso de um ditador”, justifica o jornalista Jorge Moreno, ex‑assessor de Ulysses.
Não houve volta à democracia. Embora tivesse prometido, em seu discurso no Congresso, entregar o comando de “uma nação coesa”, ainda em 1965, a um sucessor “legitimamente eleito”, Castello cedeu às pressões da linha dura das Forças Armadas. O país começava a viver uma longa noite de obscurantismo. Mais de 400 políticos tiveram os mandatos cassados, entre eles João Goulart, Leonel Brizola e JK. Muitos foram condenados a intermináveis dias de exílio.
No ano seguinte, os militares extinguiram os partidos políticos e instituíram o bipartidarismo para dar uma aparência de legalidade ao regime militar. A Aliança Renovadora Nacional (Arena) reunia os defensores do regime e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) abrigava diversas correntes políticas de oposição com a proposta de lutar pela redemocratização do país. Era uma “oposição consentida” para legitimar um poder discricionário.
A ANTICANDIDATURA Reeleito deputado federal em 1966 e 1970, Ulysses assumiu a presidência do MDB, em 1971, sucedendo o ex‑senador Oscar Passos. Nesse meio tempo, os militares editaram o AI‑5 e endureceram ainda mais o regime. Com a imprensa censurada, telefones eram grampeados e opositores presos, torturados e assassinados nos porões da ditadura.
Em protesto contra a farsa da eleição presidencial promovida pelos militares, prevista para janeiro de 1974, Ulysses lançou sua candidatura à sucessão de Garrastazu Médici (1969‑1974), tendo como vice o jornalista Barbosa Lima Sobrinho. “Não havia a menor chance de vencer, pois a Arena tinha mais de dois terços do Colégio Eleitoral. Por isso ele se autodenominou de anticandidato. Queria concorrer apenas para denunciar o sistema ditatorial”, observa o jornalista Elio Gaspari, no livro A ditadura derrotada.
Na convenção do MDB, Ulysses emocionou os correligionários ao final de um discurso primoroso. “Senhores convencionais, a caravela vai partir. As velas estão paridas de sonho, aladas de esperanças. O ideal está ao leme e o desconhecido se desata à frente. No cais alvoroçado, nossos opositores, como o velho do Restelo de todas as epopeias, com sua voz de Cassandra e seu olhar derrotista, sussurram as excelências do imobilismo e a invencibilidade do establishment. Conjuram que é hora de ficar e não de aventurar. Mas, no episódio, nossa carta de marear não é a de Camões e sim a de Fernando Pessoa ao recordar o brado: Navegar é preciso. Viver não é preciso. Posto hoje no alto da gávea, espero em Deus que em breve possa gritar ao povo brasileiro: ‘Alvíssaras, meu capitão. Terra à vista!’. Sem sombra, medo ou pesadelo, à vista a terra limpa, abençoada da liberdade”.
Não houve terra à vista naquele momento histórico. A chapa governista, encabeçada pelo general Ernesto Geisel (1974‑1979), venceu a eleição, como estava previsto. Mas a anticandidatura de Ulysses uniu e fortaleceu o MDB, que, naquela época, estava dividido em duas correntes – moderados e autênticos –, e encheu de esperanças os brasileiros com a antevisão da democracia. Como efeito colateral daquela anticandidatura, o MDB venceu as eleições legislativas de 1974. E ampliou ainda mais seus quadros no Congresso em 1978.
Naquela campanha eleitoral, Ulysses virou símbolo da resistência à ditadura ao enfrentar fuzis, baionetas, os cães da PM da Bahia e os cavalos das forças policiais de Recife. “Amigos, o MDB é como a clara: quanto mais bate, mais cresce. Os cães ladram, mas a caravana passa”, disse ele, na época.
AS DIRETAS JÁ A distensão “lenta, segura e gradual” de Geisel não evitou os excessos do regime. Mortes como as do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho, após serem torturados, comoveram o país. Por outro lado, o milagre econômico chegara ao fim e a crise alimentava a insatisfação social. Ressurgia o movimento sindical. Greves agitavam o ABC paulista. O regime dava sinais de exaustão. Ainda assim, Geisel conseguiu fazer o sucessor no Colégio Eleitoral: o general João Batista Figueiredo.
A recessão profunda e a ampliação das liberdades democráticas marcaram o governo Figueiredo. A imprensa ganhou liberdade e os exilados voltaram ao Brasil com a Lei da Anistia. Mesmo assim, a linha‑dura militar reagiu à distensão com sequestros e atentados a bomba. O Congresso, com o objetivo de barrar o avanço da oposição, aprovou a Nova Lei Orgânica dos Partidos. MDB e Arena foram extintos e deram lugar ao PMDB e ao PDS. Surgiram novas legendas e emergiram as diferenças ideológicas. Mas ainda havia um adversário comum: a ditadura militar.
Sob a liderança de Ulysses Guimarães, presidente do PMDB, foram organizados comícios pelas eleições diretas para presidente em todas as capitais, com a participação dos partidos de oposição, sindicatos e demais organizações sociais. O comício do Rio de Janeiro, na Candelária, reuniu mais de um milhão de pessoas. O povo voltava às ruas e Ulysses ganhava o carinhoso apelido de Senhor Diretas. Era o segundo grande momento da carreira política do homem que, ainda menino, ficava fascinado ao ouvir o pai contar as histórias dos ex‑presidentes da República.
Apesar da grande mobilização popular, a Emenda Dante de Oliveira, que restabelecia as eleições presidenciais pelo voto popular, não passou no Congresso, ainda dominado pelo PDS. Mas estava dado o xeque‑mate na ditadura. No dia 15 de janeiro de 1985, em uma aliança da oposição com a Frente Liberal, formada por dissidentes do PDS descontentes com a escolha de Paulo Maluf para concorrer ao cargo, o senador Tancredo Neves foi eleito presidente da República no Colégio Eleitoral, tendo como vice o também senador José Sarney, recém‑filiado ao PFL – um partido político da Frente Liberal.
Tancredo morreu dias depois, sem tomar posse, e Ulysses, principal articulador da eleição do líder mineiro, resistiu à tentação de sentar na cadeira presidencial. Na ocasião, muitos parlamentares tentaram convencê‑lo a assumir
o cargo. Mas o velho democrata, disposto a chegar ao Palácio do Planalto pelo voto popular, defendeu a posse de Sarney. O senador maranhense era malvisto por todos os que se opuseram à ditadura e também pelos militares, que agora o tinham como um trânsfuga, o que o deixava dependente do aval político de Ulysses Guimarães.
A CONSTITUIÇÃO CIDADÃ Dois anos e nove meses depois, o Brasil colheu o primeiro fruto da luta pela volta da democracia. Foi promulgada a Constituição de 1988, a sétima do país, que ganhou o apelido de Constituição Cidadã por ser a mais avançada de todas, com destaque para o capítulo dos direitos sociais e de garantias da cidadania.
Na eleição presidencial de 1989, um ano depois, veio a segunda grande frustração da carreira do ex‑deputado. Com apenas 4,4% dos votos, ele terminou a disputa pelo Palácio do Planalto em sétimo lugar. Não conseguiu superar a rejeição de seu partido, o PMDB, desgastado com os naufrágios dos planos econômicos lançados por José Sarney.
“A primeira razão da derrota foi a pulverização das forças de esquerda em várias candidaturas. Nunca deveríamos ter nos dividido tanto. Outra foi o fato de que Ulysses, embora político sério e bem intencionado, não tinha o carisma e a aceitação popular que tinha, por exemplo, Lula, já naquela época. O apoio quase unânime da grande mídia ao Collor também contribuiu para o insucesso da candidatura”, lembra Waldir Pires, companheiro de chapa de Ulysses e hoje vereador em Salvador.
O BAQUE DA DERROTA A derrota foi um baque. No ano seguinte, Ulysses se reelegeu deputado federal, mas teve menos de um décimo dos votos da campanha de 1986. E foi substituído na presidência do PMDB por Orestes Quércia. A recuperação só veio em 1992, no processo que resultou no impeachment de Collor. Não via com bons olhos a cassação do mandato do ex‑presidente, mas mudou de posição com a evidência dos fatos e transformou seu gabinete no quartel‑general da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Empenhou‑se para que a votação fosse aberta.
Collor foi afastado do cargo pelo Senado no dia 2 de outubro de 1992. Dez dias depois, o helicóptero em que Ulysses viajava com a esposa, dona Mora, o amigo Severo Gomes e a esposa do ex‑ministro, Anna Maria Henriqueta Marsiaj, caiu em alto‑mar. Todos morreram, mas só o corpo do ex‑deputado nunca foi achado. O mar, onde o Ulysses do poema épico de Homero enfrentou sua Odisseia na volta a Ítaca, negava aos brasileiros o sepultamento do timoneiro que comandou o país, nas águas turvas da ditadura, ao porto seguro das liberdades democráticas.
No dia 26 de novembro, pouco mais de um mês depois daquela morte trágica, o peemedebista Pedro Simon fez uma homenagem ao velho comandante que emocionou os colegas no Senado. “Há um grande silêncio neste plenário. Há uma grande ausência nestas salas e corredores. Não obstante o silêncio e a ausência, silêncio que perturba os nossos ouvidos, ausência que fere os nossos olhos, a voz forte de Ulysses Guimarães ecoa na consciência moral deste Parlamento, de nosso povo e do nosso tempo”.
Passados 24 anos de sua morte, o vazio que Ulysses deixou se tornou ainda maior. O enteado Tito Henrique imagina como o ex‑deputado se sentiria diante do atual cenário político do país. “Se estivesse vivo, estaria indignado, como todo mundo, mas estaria empunhando a bandeira da reforma política, a coisa mais necessária hoje”.

Fonte: Revista Desafios do Desenvolvimento (IPEA)

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