A inacreditável vida de Animal, a maratonista que mora há 17 anos...

A inacreditável vida de Animal, a maratonista que mora há 17 anos no Ibirapuera – por Chico Felitti

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Ex-moradora de rua, ex-usuária de drogas e analfabeta, Ana Luiza dos Anjos Garcez, 55, coleciona vitórias em São Paulo e Nova York. Agora, a privatização do ginásio pode deixá-la de novo sem teto.

Chico Felitti

Na tarde de 6 de fevereiro, a terça-feira que precedeu o Carnaval 2018, o Conselho Diretor do Programa Estadual de Desestatização se reuniu no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo, no Morumbi.

O encontro serviu para falar sobre o futuro de Animal. Ou, como consta na ata, “discutir as mudanças no Conjunto Desportivo Constâncio Vaz Guimarães”, também conhecido como Complexo Ginásio do Ibirapuera.

Animal é o apelido da maratonista que vive há 17 anos em um quarto no ginásio — sem nenhuma autorização formal. Recebeu o convite de um secretário estadual e desde 2001 está lá apenas por inércia, já que nunca foi expulsa. Agora, com o plano de privatização, ela corre o risco de virar sem-teto novamente.

Chico Felitti / BuzzFeed News

No universo dos corredores brasileiros, Animal é uma celebridade de nicho. Ela é a ex-moradora de rua, a ex-usuária de drogas, a analfabeta que, aos 55 anos, coleciona troféus como o da São Silvestre em sua categoria e disputa competições internacionais — muitas vezes paramentada com perucas coloridas ou pinturas corporais, e às vezes tentando ultrapassar adversários aos gritos de “Sai da frente, filho da puta!”.

Por ter uma irmã e uma tia maratonistas, eu já havia cruzado com essa veterana fantasiada em algumas provas em que estava como espectador. Mas só sabia de sua vida o clichê do exemplo-de-superação que circula entre os corredores de São Paulo, segundo o qual Animal teve a alma salva pela corrida.

Eu mesmo quase comprei essa versão. Quando resolvi contar a história da mulher que deve perder sua casa por conta do plano de privatização do Ginásio do Ibirapuera, pensei em começar o texto assim: “Animal não sabe ler. Animal não sabe escrever. Mas Animal sabe correr”.

Em cinco meses de convivência, no entanto, descobri que não foi o talento para a corrida que salvou Animal. Até porque ela nunca precisou ser salva. “A vida é minha e eu vivi do jeito que eu queria”, ela repete.

Chico Felitti / BuzzFeed News

O último dia do ano

Às 5h da manhã de 31 de dezembro de 2017 o sol do último dia do ano ainda é uma promessa que começa a se concretizar no horizonte. Animal já está de pé há uma hora e meia. “Vamo, caralho, a gente vai atrasar!”, sua voz rouca diz por mensagem de áudio enquanto eu desço do carro na portaria do Ginásio do Ibirapuera.

O prédio redondo, que comporta 11 mil pessoas, fica em frente ao parque. É lá que acontecem alguns Grand Prix de Vôlei e torneios de tênis como o Brasil Open. Mas uma fatia da cidade provavelmente se lembra do ginásio como o lugar onde viu Mickey Mouse e sua turma patinando no gelo no espetáculo Holiday on Ice, que já teve dezenas de edições nas últimas três décadas, e volta para lá neste mês.

Esse mamute de concreto, que tem as paredes externas pintadas de vermelho e verde-abacate, tem 22 quartos no anel que fica ao redor do segundo andar. O andar de quartos só pode ser acessado por entrada que fica no lado de fora, e não é vista por quem está dentro do estádio.

Entro no estádio pela entrada 2, que tem uma porta de vidro de correr e uma parede em que foi pintado um céu azul com nuvens esparsas. Subo uma escada caracol de madeira. A portaria do 1º andar no momento está vazia, mas geralmente conta com um segurança para zelar pela única moradora do prédio.

O lugar lembra o hotel de “O Iluminado”, só que com um corredor curvo que completa uma volta em si mesmo, em vez da fileira reta de cômodos do filme. Vinte e um quartos têm beliches, e comportam até 14 pessoas cada um, mas na imensa maioria do tempo ficam vazios. O 22º quarto é o de Animal, ocupado o ano todo.

Subo o último lance de escadas e encontro Animal na porta do quarto, vestindo um top preto e um sunquíni, uma espécie de biquíni mais generoso na quantidade de tecido — a parte de baixo é um short, em vez de uma calcinha. Ela, que eu havia conhecido semanas antes, me recebe com um movimento de cabeça.

“Tô atacada hoje. Vamo logo”, diz.

A metade esquerda do seu corpo está cintilante e cor de rosa, e a outra metade está dourada, e uma mulher esguia de cabelos encaracolados a ajuda a polvilhar purpurina nas mãos, que estão em cima de um latão de lixo. Há uma toalha estendida no chão, empanada com pó brilhante.

Chico Felitti / BuzzFeed News

“Será que precisa levar mais, Dulce?”, ela pergunta para a ajudante, a quem não me apresentou. Animal fala com a velocidade de uma campeã de 100 m rasos, e não de uma meia-maratonista de 55 anos prestes a correr uma prova de 15 quilômetros.

Dulce acha que não vai ser necessário, e termina de cobrir a mão de Animal de brilho. Animal explica que, para conseguir o efeito que a deixa parecendo a estatueta do Oscar, criou uma mistura de uma medida de pó brilhante para uma medida de creme Nívea.

Animal está colocando os tênis, sapatilhas da finura do papel com desenhos japoneses na sola, quando passo a porta do seu quarto, cheia de adesivos de bandas como Iron Maiden e Pantera, e entro. O cômodo faz lembrar de outro filme, “Harry Potter”. Assim como o bruxinho, Animal também mora atrás de uma escada. Ou, melhor, de uma arquibancada: a maior parede do quarto não é plana, tem o formato dos degraus onde as pessoas se sentam, do outro lado. O canto do quarto faz um bico, onde Animal guarda suas coisas.

E são muitas coisas. Há 30 malas fechadas, centenas de medalhas (da primeira vez que contei, em dezembro de 2017, eram 732, mais 289 troféus), um frigobar, uma máquina de lavar roupas, um varal e um colchão no chão.

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É bem provável que em breve Animal e suas 30 malas percam o quarto que ocupam há 17 anos. O plano de privatização não conta com a presença dela ali.

Uma reforma de três anos e R$ 600 milhões promete transformar o ginásio em “uma estrutura moderna”, segundo a licitação. A pista de corrida onde Animal corre três vezes por semana, no mesmo terreno, vai virar “uma arena multiuso” que a administração apelidou de “o Madison Square Garden brasileiro”, em comparação com a casa de show nova-iorquina, uma das mais famosas do mundo.

“Eu não sei para onde vou”, ela havia me dito a primeira vez que a procurei, em meados de novembro, quando soube que ela morava no ginásio e fiquei curioso para saber qual seria seu destino.

Depois de três semanas de tentativas em vão, consegui marcar um encontro com Animal com ajuda de uma amiga dela. A corredora, que não respondia mensagens de WhatsApp e não atendia o telefone, me recebeu no estacionamento do ginásio. Preferiu não mostrar seu quarto. “Você quer ver o que lá?” E decidiu que uma entrevista já era suficiente para minha reportagem, por mais que eu tenha pedido para acompanhar sua rotina por alguns meses.

Depois do primeiro encontro, insisto. Ligo para ela 22 vezes até conseguir falar de novo. Nos encontramos uma segunda vez. Animal já avisa quando chego perto: “Não gosto que peguem”, e me cumprimenta com um aceno de cabeça. Digo que quero escrever sobre a vida dela toda. Que a gente vai ter que se ver muito para isso. “É um livro que você vai fazer? Tá bom. Você acha que com esse livro eu consigo ir pros jogos dos gays?” A prova dos sonhos de Animal em 2018 é a meia-maratona dos Gay Games, que serão realizados em agosto na França. Animal, como veremos mais para a frente, ama os gays.

Digo que não posso prometer nada. Mas posso escrever que ela quer muito ir à competição LGBTQ. Quem sabe alguém não decide apoiar sua ida? “E escreve também que eu amo a Karol Conká e quero conhecer ela.” Faço essa promessa pelo telefone. “Tá. Vamo comigo na São Silvestre, cê vai ver tudo.”

E cá estou no dia da São Silvestre, parado no quarto dela, absorvido pelo sono e hipnotizado pelos troféus (meia-maratona da Disney de 2016, Circuito Popular de Corrida de São Paulo de 2013, Women’s Master Champion Miami 2009), quando ouço um grito: “Partiu!”.

Animal desce as escadas correndo. Ela e Dulce já estão trotando pelo asfalto quando chego no térreo. “Vamo, cara!”, ela grita olhando feio para trás. Animal parece tolerar a minha presença, mais do que desejar que eu esteja ali naquele momento. É o jeito dela, já sei, a essa altura do campeonato.

Chico Felitti / BuzzFeed News

Muitas das pessoas ao redor de Animal explicaram que ela, que viveu na rua por mais de 14 anos, preserva o coração de um adolescente — mas também os modos de um. As primeiras palavras que ouvi da sua boca foram: “Buceta fedida!”, para uma segurança do ginásio que impediu minha entrada no dia em que nos encontramos para nossa primeira entrevista, no começo de dezembro. Aos poucos, eu descobriria nela uma das pessoas mais leais com quem já cruzei. Mas, no dia da São Silvestre, eu ainda estava numa fase de teste, por assim dizer.

Embarcamos os três em um ônibus 475R-10, que sobe a Brigadeiro Luís Antônio e vai ao Parque Dom Pedro II. Animal conversa com o cobrador: “Vamos correr a prova! Acho que hoje pego um pódio”. Enquanto o ônibus percorre os oito quarteirões até a avenida Paulista, Animal se segura perto do motorista. Quando o coletivo freia, ela flexiona os músculos do braço.

Feche os olhos e pense numa maratonista. É provável que a imagem seja alguma coisa perto do corpo de Animal. Seus 42 quilos compactados em um metro e meio são uma aula de anatomia ambulante. Cada músculo e veia se manifesta quando ela movimenta os braços, delgados e definidos. O abdômen dela tem mais gomos que uma mexerica de junho, brincaria outra atleta num dia em que Animal reclamou em público que estava pançuda. Quando ela não está de roupa de corrida, seu corpo parece que diminui, e ela se torna uma mulher franzina que pode ser confundida com um menino adolescente. Mas no 31 de dezembro ela está de sunquíni e brilha. Pode ser vista de longe.

O ônibus para a um quarteirão da Paulista, o mais próximo que pode chegar da via, fechada para a prova que reúne 30 mil atletas. Animal desce pela porta da frente, e nos chama. “Eu nunca pago. Dou meus pulos”, ela ri, quando descemos na alameda Santos.

Um grupo de curiosos cerca três sujeitos que Animal vai cumprimentar. “E aí, Zé Gotinha!”, ela diz para um homem magro e franzino com uma roupa de lycra vermelha, estampada com todos os tipos sanguíneos, de A+ a O-. Ele usa uma cabeça de fibra de vidro que de fato lembra o personagem criado na década de 1980 para estimular a vacinação contra a poliomielite. Na verdade, ele é Hematolino, o mascote de um centro de sangue da Amazônia. Mas pode chamar de Sérgio Silva quando ele está sem máscara, como no asfalto da avenida Paulista, pois está suando de calor. Sérgio vem de Manaus a São Paulo todos os anos para correr a prova. Fica em um dos quartos vizinhos ao de Animal. “Tem que doar sangue!” é seu bordão.

Também estão na patota o Homem-Árvore, que se cobre de flores e trepadeiras de plástico, e o Sheik da Corrida, que alguns incautos chamam de Osama Bin Laden. Todos esses fantasiados ficam hospedados nos quartos ao redor do Ginásio do Ibirapuera quando vêm a São Paulo para a prova. Mas só Animal mora lá. E só Animal se fantasia sem ser um mascote. Ela é uma atleta: chegou a ser a 33ª corredora do ranking brasileiro e ganhou dezenas de meias-maratonas. E, aos 55 anos, alcança seu melhor momento profissional. A pintura corporal, que virou sua marca registrada, é só para “brilhar muito”, ela diz. “As pessoas me conhecem, elas pedem que eu venha pintada.”

“Tô atrasada, depois a gente se fala”, diz Animal aos colegas fantasiados, já correndo de novo. Ela cruza um pedaço da Paulista e vira à esquerda na rua Santo Antônio do Pinhal, primeira rua paralela à via mais famosa de São Paulo.

Uma comitiva de Jarinu, cidade do interior paulista, pede para fazer uma foto com a atleta. “Você é famosa, né?”, diz uma senhora corpulenta. Animal sorri para mim: “Cê viu, todo mundo me conhece”. Enquanto isso, um casal de atletas a cerca, e tenta cada um passar um braço por um lado. Ela se esquiva, girando o corpo. “Só não põe a mão!”, ela pede para os fãs.

Animal é uma celebridade de nicho. Nos cinco meses que passei com ela, não houve uma saída sem pedido de selfie. E ela gosta. Mas no dia da São Silvestre talvez não goste tanto. Dois homens musculosos, com tatuagens tribais, passam correndo ao lado de Animal e comentam: “Olha o Surfista Prateado”. Ela nem se vira para gritar: “Vai tomar no cu!”.

Um cosplay do Quico do Chaves, com uma bola de plástico prateada embaixo do braço e meias amarelas puxadas até o joelho, se dirige para Animal. “Vamos fazer uma foto?”, ele tenta abraçá-la. “Sem encostar!”

Chico Felitti / BuzzFeed News

Chegamos a um ponto de entrada da prova. Há três funcionários controlando quem pode entrar naquele trecho da avenida Paulista: 2017 foi o primeiro ano de um novo sistema de combate aos “pipocas”, jargão para os corredores que fazem uma prova sem ter pago a inscrição — de R$ 170, no caso da São Silvestre. A prova chegava a ter 3.000 pipocas, ou 10% dos participantes, afirmam os organizadores.

Marcos, o mestre de cerimônias da prova há 20 anos, é barrado na minha frente, e os funcionários levam mais de dois minutos para liberá-lo. O esquema de segurança de uma prova que nasceu com 60 inscritos em 1925 havia ficado sério.

Só passaria dos cercados e chegaria à Paulista com a Augusta, onde a prova começa, quem tivesse um número de peito, avisou um funcionário. Eu não tenho inscrição, então não posso passar dali. Animal entra e desaparece na subida. Logo, um homem em roupas maltrapilhas começa a gritar com os funcionários: “Isso o que vocês estão fazendo é preconceito! Eu cato lata na Paulista!”. Ele é barrado.

No dia seguinte à prova, houve um escândalo na comunidade corredora porque a Run Up, assessoria de corrida de Sorocaba, no interior do Estado, usou cópias do mesmo número para ao menos 12 pessoas. A fraude foi parar na capa de jornais.

A minha fraude, entretanto, passou batida. Cinco minutos depois, Animal volta trotando. Tem nas mãos um número. “Coloca aí, consegui com um amigo.” Passo pelo posto de controle e entro no asfalto, reservado para atletas naquela manhã.

A São Silvestre é uma das provas mais clássicas do país. São 15 quilômetros que valem por um tour paulistano: começam na avenida Paulista, passam pela avenida Pacaembu e pelo cruzamento da Ipiranga com a São João. A subida da Brigadeiro Luis Antônio é considerada um teste para corredores que querem sair do amadorismo e pensar na sua primeira maratona.

Animal não é amadora. Tanto que há dez anos corre com a elite da prova. Só que em 2017, mesmo que tenha ganho mais provas do que nunca, recebeu de um amigo da organização da São Silvestre uma inscrição que não era do grupo de elite da corrida.

Mas diz que tem um conhecido que vai conseguir colocá-la na elite. “É o Zé Galinha. O Zé Galinha vai colocar a gente na elite.” Animal corre de lá para cá na Paulista fechada. Cumprimenta pessoas que trabalham na organização do evento, e pergunta a todos do Zé Galinha.

Depois de avistarem Zé Galinha, Animal e Dulce se espremem entre a grade que limita a elite dos corredores mortais. A garoa engrossa e passa a se chamar chuva. Desejo uma boa prova para as duas, e combino de encontrar Animal depois do fim da prova.

Entro no único boteco da avenida que está aberto às sete da manhã. Lá dentro, sou a única pessoa que não está vestindo a camiseta da prova, além das duas atendentes. Olho para a TV, ligada na Rede Globo. Depois de mostrar a elite dos corredores, a câmera dá uma geral no pelotão dos atletas não profissionais. Animal está na frente de todos. Ela ocupa a tela por cinco segundos, correndo no lugar e se alongando. Faço uma foto enquanto fico sabendo que ela vai sair com a massa, informado pela televisão.

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Às 8h20, hora do início da prova, a chuva arrefeceu e pode voltar a ser chamada de garoa. É dada a largada. As pessoas andam o começo da São Silvestre. É um carpete humano que se move mais lento que um passeio com um filhote de cachorro. As pessoas tropeçam umas nos pés das outras. Uma mulher que levanta o celular para fazer selfies de si mesma correndo é recriminada conforme a avenida Paulista entra num declive e se transforma no túnel Doutor Antonio Bias da Costa Bueno, que leva para a avenida Doutor Arnaldo. “Tá aqui pra correr ou pra fotografar?”, pergunta uma voz masculina. Ela abaixa o celular.

Na subida da Doutor Arnaldo, o bololô de gente já fica menos denso. As pessoas começam a flexionar os joelhos e a impôr seus ritmos de corrida.

Cumpro menos de dois quilômetros da prova, até o cemitério do Araçá. Dou meia-volta e retorno para a Paulista, na altura do número 900. Vou esperar Animal na frente do prédio da Gazeta, onde está a linha de chegada.

São 9h04 quando, 44 minutos e 15 segundos após o início da prova, o etíope Dawit Admasu, número 101, rasga a fita da prova. Os atletas de elite seguem. Uma hora, nove minutos e 33 segundos depois de começar a correr, é a vez de Animal chegar.

É impossível encontrar Animal ou Dulce, que levou 20 minutos a mais que a amiga, na chegada. “Cruzei a linha e já me pegaram pra fazer foto. Parei aqui, não sei nem onde, porque umas pessoas queriam fazer foto. Tá todo mundo em cima”, ela diz por áudio lá por volta das 10h. Talvez ela só não me quisesse por perto. Pergunto se ela foi bem. “Ah, acho que fui sim. Foi foda, muita gente no pé”.

Três semanas depois, a impressão seria confirmada.

CAPÍTULO 2 – A CORREDORA DA RUA

Ana Luiza dos Anjos Garcez, número de peito 24852, foi a 49ª mulher na colocação geral da São Silvestre. Venceu na categoria feminina entre 55 a 59 anos. É o que descobrimos duas semanas depois na tela do meu celular, quando estamos no banco de trás de um Celta que vai do Ginásio do Ibirapuera ao centro de São Paulo.

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Animal dá um grito agudo quando conto que ganhou. Coloca as mãos na cara e começa a resfolegar, como se tivesse corrido outros 15 quilômetros. “Caralho! Caralho! Caralho!” Me abraça, pela primeira vez, até se lembrar de que está no carro dirigido por um desconhecido, depois me solta e dá um tapa no meu ombro, que deixa um vergão, enquanto aponta um dedo para o motorista, Clayton Ezequiel, e faz sinal de silêncio colocando um dedo em riste na frente da boca.

“Não precisava falar na frente dele”, ela ralha quando descemos do carro na praça da República. Animal preza muito por sua privacidade. No segundo mês de entrevistas, já me recebe em seu quarto e começa a confiar seu passado, que geralmente trata de maneira ligeira. Conta que não tem família. Foi abandonada pela mãe, que nunca chama de mãe, mas de “aquela mulher”. Foi criada com uma irmã gêmea, Ana Maria, a quem viu pela última vez quando tinha 18 anos e, conta, havia saído da Febem.

Quando atingiu a maioridade, diz que foi encaminhada pela instituição para trabalhar numa casa de família, na zona norte de São Paulo, como empregada. Trabalhou por cinco meses sem receber um tostão. No sexto mês, a patroa foi viajar. Ela rasgou um saco de ração, espalhou o conteúdo no chão para os cinco cães comerem, e encheu três malas com tudo o que pode achar. “Jóia, roupa, sapato, comida, tudo.” Pediu que os bombeiros do batalhão que ficava colado à casa a ajudassem a colocar as malas num ônibus. “Meu sonho era ir para a cidade.” Desceu na praça da República, e em minutos as malas já estavam vazias. “Não perdi nada, nem fui roubada. Eu dei tudo para os maloqueiros de rua. Só não dei um cobertor.”

As ruas do centro foram uma opção de vida. “Era melhor do que o que eu tinha. Fiquei com medo, chorei muito. Mas fui me acostumando. Depois de um tempo, isso aqui já era minha casa”, diz, apoiando-se no coreto da Praça da República, onde quatro homens dormem sobre jornais estendidos no chão. “Eu gostava e não gostava ao mesmo tempo. Mas não queria sair da rua não.”

No total, foram 12 anos perambulando por São Paulo. Morou no meio-fio entre a loja de departamento Mappin e o Theatro Municipal. Passou anos embaixo do Minhocão, o viaduto que corta o centro da cidade. Dormiu no jardim do Centro Cultural São Paulo, no Paraíso. No último período, se mudou para a avenida 23 de Maio, num buraco embaixo de um viaduto. “Tinha televisão, tudo legal.”

Para se sustentar, pedia dinheiro e cometia furtos. Comandou um grupo de jovens, como ela, que chegou a contar com 20 pessoas. “Já roubei, já bati, já meti a faca.” Tinha medo da cadeia? “Nunca! Se me pegassem, que não pegaram, era só passar um tempo lá, comendo, dormindo e cagando e sair linda”, ela beija o próprio ombro.

Enquanto ela anda pela rua Basílio da Gama, no centro, repisa seu passado. Nos anos de rua, só não usou crack. “Porque ainda não existia crack, né, graças a Cris.” Ela chama Cristo de Cris. De resto, muita coisa passou por seu organismo: cola, benzina, éter, criolina. Quando não conseguia dinheiro, ia a postos de gasolina e dizia que tinha derrubado graxa na roupa e pedia no posto solvente para tirar a mancha imaginária. “Queimava o estômago antes de subir pra cabeça.” Hoje, não toma nem refrigerante. “Eu já fui tão viciada em droga que não preciso mais de nada. Deu.”

Parou mais por medo do que por vontade. “Tive uma dor de cabeça muito forte um dia. Acordei e estava toda torta. Desse lado eu não sentia”, e pega no braço direito. “Meu lado estava formigando. Eu tinha que fechar meu olho com o dedo.” Foi levada à Santa Casa de Misericórdia, onde passou 15 dias internada. “Eu quase morri porque tive abstinência.” Mas saiu viva. E foi aí, com quase 30 anos, que parou de usar drogas. E começou a correr.

Galeria do Rock

Quando chegamos às ruas atrás do Theatro Municipal de São Paulo, é difícil acreditar que Animal não é candidata a vereadora. Homens que colocam cadeiras na calçada da rua 24 de Maio para vender cachimbos de durepox a cumprimentam com apertos de mão que envolvem movimentos complexos de puxar, socar e agitar os dedos. A mulher do carrinho de Yakult a abraça. “Mas por onde você anda?!”

Faz meses que animal não passa na Galeria do Rock — desde que desistiu das tranças coloridas que usou até o meio da cintura por anos. Ela me levou ali porque na galeria fez negócios e amigos, desde a época em que morava nas ruas do entorno. “Todo mundo dos salões me conhece. Eu sempre fui linda e corri atrás disso, né?”, diz ela, passando a mão na pele da cabeça, que está lisa.

Dulce já tinha me contado o que levava Animal a raspar o cabelo na época em que morava na rua: “De cabeça lisa ela fica parecendo um menino, né? E ninguém vai querer… Vai querer pegar um menino à força, né?”.

Na Galeria do Rock, com o cabeleireiro que tingiu seu cabelo.

Chico Felitti / BuzzFeed News

Na Galeria do Rock, com o cabeleireiro que tingiu seu cabelo.

Entramos no subsolo do prédio de sete andares. Um cheiro de cabelo queimado substitui o perfume de poluição do centro de São Paulo. São mais de dez salões de beleza só naquele andar. Enquanto brinca com extensões de cabelo artificial cor de rosa expostas em uma vitrine, Animal confirma que era careca para tentar parecer um menino, e assim se defender.

Na época, era conhecida como Tia Punk e comandava o bando de garotos de rua. Mas não foi assim durante todo o período em que morou na rua. “No começo, eu usava sainha, tinha cabelão. Vinha trançar aqui. Aí uma hora não deu mais.”

A hora que não deu mais foi uma madrugada de verão na década de 1990. Animal dormia na escada do prédio da Gazeta, na avenida Paulista, quando acordou com alguém em cima dela. “Ele tentou me pegar à força.” Ela levantou no susto, jogou o estuprador no asfalto da avenida Paulista. “Chutei as bolas dele.” Os meninos do seu grupo acordaram com a algazarra. “Ele saiu de lá quase sem conseguir andar.” Desde então, ela não usa mais saia nem vestido.

Hoje, passados 20 anos, voltou a andar careca, depois de anos usando tranças coloridas para correr. Mas o motivo é outro. “Sabe quanto eu gastava? Mais de mil reais por vez que vinha aqui. Comprar cabelo, pra trançar, para tirar”, ela diz enquanto mostra a vitrine do salão Brown Sugar Hair, especializado em cortes afro. “Vem, entra. Vamos ver se ela tá aqui.”

Animal me leva para um segundo andar em que o pé direito é baixo a ponto de eu ter de abaixar a cabeça para ficar em pé. É lá que está Mábata, sua cabeleireira predileta, uma mulher que veste roupa de jogador de basquete e tem um cabelo parecido com o de Beyoncé, nos melhores dias da cantora americana.

Mábata está trançando o cabelo de um menino de três ou quatro anos sentado no colo da mãe. A criança não só aceita sem reclamar que seu cabelo seja puxado e trançado, como mama tranquilamente no peito da mãe enquanto isso acontece. “Ele trança desde bebê, não sente dor nenhuma”, diz a mãe.

Mábata conta que Animal trocava os penteados por bicicletas ou tênis que arranjava. “Eu não perguntava como. E ela sempre queria as coisas mais caras, as melhores”, diz a cabeleireira. Animal a incentiva: “Pode contar tudo. Fala aí, Mábata”, enquanto coloca na cabeça mechas de kanekalon, um cabelo sintético popular nos anos 1980, que vão até o fim das costas. “Ela descolava tênis de basquete que nem na loja tinha ainda. Essa aí é esperta”, ri a cabeleireira.

Saímos do salão e vamos para uma loja de cosméticos. Um homem que parece Papai Noel de barba feita recebe Animal com gritos aparentemente furiosos. “Sai daqui! Sai!” Mas ele termina de berrar e começa a dar risada. É Malfati, que toca a loja de produtos de beleza que já foi do seu pai, com o triplo do tamanho de hoje, um quadrado em que mal cabem cinco pessoas.

Bonachão, ele levanta, abraça Animal e diz: “Cê tinha que ver essa porra correndo. Ninguém pega essa porra”. Animal se verga de tanto rir. “Ah, papi, mas aqui eu nunca roubei.” Ele olha feio para ela, antes de abrir um sorriso. “E cadê seus amigos da rua, Animal?”, pergunta Malfati. “Eu nunca mais vi esses meninos. Sei que um morreu. Outra virou camelô. Ah, outro morreu também.”

“Ele que me batia”

Do centro, pegamos o metrô e vamos para o encontro da rua da Consolação com a Paulista. A via mais famosa da cidade foi palco de outro período da vida de Animal.

Semanas antes, ela tinha perguntado se eu era casado ou tinha filhos, enquanto corríamos no estacionamento do ginásio. Respondi que era casado com um homem. Ela parou, jogou os braços para cima e gritou: “Bichaaaaa! Eu a-mo os gays! Eu sou uma gay! Vivia na Nostromondo.”

A Nostromondo foi uma das primeiras boates gay de São Paulo. Ficou aberta de 1971 até 2014. Antes de fechar, por falta de público, acumulava 43 anos de funcionamento ininterrupto, o que lhe dava o título de boate LGBTQ mais longeva do Brasil. Foi também uma casa noturna pioneira no espaço artístico que dava para drag queens. O palco da Nostro foi onde começaram na carreira artistas famosas como Silvetty Montilla e Kaká di Polly.

E Animal participava desses shows como figurante. “Eu fazia o Praga da Xuxa no palco. Mas, em vez de Turma da Xuxa, era Turma da Puta.” Além de brincar no palco, Animal limpava os banheiros depois que todos os festeiros tinham ido embora. “Eles me davam um troco e eu ia comprar droga.”

A boate era mais do que trabalho para ela. “Eu me divertia tanto, bicha.” Animal era a campeã das gincanas no lugar. Só perdia as provas de corrida sobre salto alto tamanho 15 para Marcia Pantera, uma drag queen de dois metros de altura que jogou vôlei profissionalmente antes de virar uma das mais conhecidas artistas da noite. Pantera é a musa do estilista Alexandre Herchcovitch, e vive entre o Brasil e a Alemanha, onde lota casas noturnas com seus shows.

Foi nessa época, batizada por drag queens, que Ana Luiza dos Anjos Garcez, até então apelidada de Tia Punk, virou Animal. Os frequentadores da boate a chamavam de Animal por dois motivos bem distintos, mas não opostos. “Um é que eu era meio loucona, que nem um bicho. O outro é que as bicha sempre curtiram meu estilo, me achavam animal.”

Reprodução

Ela mesma usa o apelido que adotou quando quer mostrar surpresa com alguém. “Cê é animal!”, disse, num misto de admiração com indignação, quando viu que eu tinha tatuado as costas da mão. “Eu me borro na fralda de medo de agulha.”

Animal bate na única parte da porta da Nostromondo que não está lacrada por uma parede de tijolos, mas ninguém atende. Quatro anos atrás a boate, que tinha perdido seu glamour e se transformado num inferninho com shows de sexo ao vivo, foi fechada. O prédio foi vendido por R$ 4 milhões e sua fachada pichada ainda não revela o que funcionará ali.

Saímos da frente da Nostromondo e vamos andando pela Paulista. Na frente do parque Trianon, ela vê de longe uma guarita da Polícia Militar. Acena, e um PM alto e forte acena de volta. “Foi ele que me bateu”, ela diz com naturalidade, antes de disparar até o policial e sacudir a sua mão.

Quando me aproximo, ela aponta para mim. E fala, animada: “Ele tá fazendo uma matéria sobre a minha vida. Conta aí como cê descia o cacete e hoje a gente é amigo”. O sorriso do PM some. Ele vira as costas e sai andando. “Ele que me falou. Eu não lembro, mas ele falou que me dava vários cacetes. Hoje a gente conversa, às vezes ele me dá café.”

Ela continua falando com leveza sobre como apanhou até perder todos os dentes e fraturar o nariz. Eu olho para a boca dela e digo “mas conseguiram consertar bem esses dentes, né?”. Ela usa a língua para mover o que descubro ser uma dentadura, e revelar sua gengiva nua. “Foi ele”, ela aponta para trás. “Se eu corresse o que eu corro hoje, ele não teria me pegado.”

Se o momento em que Animal resolveu correr tivesse uma trilha sonora, seria a música mais clichê o possível. Ela conta que numa tarde do fim dos anos 1998 se refugiou do calor entrando escondida no Cine Marabá, na praça da República. A matinê exibia um filme de quase 15 anos antes, “Carruagens de Fogo”, que mostra a competição de atletismo na Olimpíada de 1924.

Saiu do filme mudada. “Foi a coisa mais linda que eu vi na minha vida.” Na mesma noite, fez as encomendas para os moleques da sua patota. “Você vai me roubar um tênis, você um short e você, uma meia.” Em dois dias, era uma corredora de rua que morava na rua. “Mas eu corria mal.” A trilha sonora de “Carruagens de Fogo” é usada até hoje nos anúncios de TV da São Silvestre, a prova que Animal acabara de vencer.

A madrinha do parque

Heloísa Galvão e Ana Animal fazem uma dupla improvável, sentadas lado a lado no sofá de couro de um apartamento repleto de pinturas no bairro do Paraíso. Animal veste top preto de corrida, short e mais nada, enquanto Heloísa carrega uma gargantilha de ouro no pescoço, mais ornamentos dourados nos braços. Usa unhas vermelhas, e cabelos também. Tem a pele de quem se bronzeou por grande parte dos 76 anos.

Mas as duas nutrem uma amizade que já passa dos 25 anos de idade, desde que Animal morava na rua e Heloísa administrava os negócios de seu marido, um cirurgião plástico que continua lúcido e trabalhando aos 90 anos.

Heloísa e o marido.

Chico Felitti / BuzzFeed News

Heloísa e o marido.

As amigas se conheceram em 1998. Heloísa estava na marquise do Parque Ibirapuera, jogando bolinha com suas duas cãs maltesas, quando Animal se aproximou. “Ela usava um bermudão e um camisetão, parecia um menino. Perguntou se podia brincar com os bichinhos. Eu disse que sim, claro.” As duas começaram a conversar.

“Me deu uma vontade de fazer algo. Qualquer coisa”, diz Heloísa. Ela começou a comprar roupas e comida para Animal. As duas continuavam se encontrando no parque várias vezes por semana. Havia um grupo de habitués que conversavam. Ele incluía o patinador Francisco de Assis Pereira, que ficaria conhecido como Maníaco do Parque por ter matado ao menos seis mulheres no Parque do Estado, também em São Paulo. “Ainda bem que com ele mal conversei. Mas na Ana eu confiei desde o começo”, diz Heloísa. “Tem alguma coisa nela que transmite uma verdade, isso me encantou. Decidi trazer ela para perto.”

E estão próximas até hoje. As duas passam Natal, Dias das Mães e Réveillon juntas, e vão ao salão de beleza de vez em quando — da última vez, Animal decidiu descolorir os cabelos, e teve de ser posta embaixo de um ventilador quando seu couro cabeludo, já danificado por muita tintura, começou a arder.

Menos de um ano depois de se conhecerem e virarem amigas, Heloísa alugou um quarto para Animal no segundo andar de uma farmácia de manipulação, perto da sua casa. Deu a ela seu primeiro par de tênis de corrida (até então, corria descalça ou de Keds que os seus meninos furtavam para ela). Pagou a inscrição das primeiras provas que Animal fez oficialmente. A atleta amadora começava a correr. Até que uma equipe de TV a viu, e fez uma reportagem sobre sua trajetória.

Da rua para as ruas

Fausto Camunha está sozinho em seu escritório de comunicação corporativa, em Moema, quando se senta na mesa de reunião para falar do passado. Camunha é um jornalista que foi transformado em político e que retornaria à comunicação após anos de vida pública. Foi editor do Jornal Nacional, trabalhou na TV Bandeirantes e na Jovem Pan. Foi também o homem que tirou Animal da rua.

Em 1998, assumiu a Secretaria Municipal de Esporte na gestão Celso Pitta. Antes, tinha sido secretário estadual da mesma pasta, no governo Luiz Antonio Fleury Filho.

“Eu vi uma reportagem com a Ana Luiza, não lembro em que canal. Mostrava uma moradora de rua que corria. Me emocionei e pedi para uma assessora localizá-la.” Dois dias depois, ela foi encontrada, com seu grupo, no Vale do Anhangabaú. A corredora da rua foi visitá-lo no escritório da avenida República do Líbano, um dos endereços mais caros da cidade. “Ela chegou um pouco assustada, e eu logo fiz o convite: queria que você viesse morar no Centro Olímpico para eu poder te ajudar a ser uma atleta”.

Animal aceitou de imediato. No Centro Olímpico, que é administrado pela prefeitura, teve acesso a médico, psicólogo, dentista. Tirando os vermes, a anemia e os dentes quebrados pela polícia, estava com a saúde até que em dia. “Para quem morou 15 anos na rua, eu tava ótima”, diz ela. Em pouco tempo, como vamos mostrar mais à frente, seria o patinho feio de uma das melhores equipes do Brasil.

Mas, antes de virar corredora profissional, ela foi braço direito do secretário. Os dois faziam incursões ao centro. “Ninguém mexia comigo, porque ela virava uma fera. Era o único jeito de eu conversar com moradores de rua.” Durante sua gestão, Camunha colocava mesas de pingue-pongue na praça da Sé e chamava para dar aula Hugo Hoyama, que conquistou dez medalhas de ouro no tênis de mesa dos Jogos Pan Americanos.

A presença de Animal ajudou o então secretário a encaminhar dezenas de crianças que estavam nas ruas para abrigos. “Ela fala a mesma linguagem da molecada que está na rua, e que precisa ser inserida na sociedade.” Animal morou no Centro Olímpico por três anos até Camunha deixar a secretaria, com a troca de governo, e ele conseguir com um político aliado o quarto no Ginásio do Ibirapuera, onde ela mora até hoje.

Pergunto o que o levou a ir atrás da mulher na tela na TV, e a nutrir com ela um relacionamento próximo do paterno que já completou duas décadas. Até hoje, Animal vai ao escritório dele e passa tardes sentada, olhando-o trabalhar. Ele para de falar. E aponta com o queixo para o gaveteiro que fica ao lado da sua mesa. Em cima dele, atrás de uma estátua de Nossa Senhora, está um porta-retrato. Nele, há uma foto do filho que Fausto e sua mulher perderam em um acidente de carro. Ninguém fala mais nada. Aperto a mão de Camunha e agradeço pela conversa. Ele me puxa para um abraço.

Tia Punk e seus sobrinhos

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Não encontro o vídeo da reportagem que levou Fausto a procurar Animal. Mas acho outro vídeo que mostra sua vida na rua. Em 1989, o cineasta Celso Renato Maldos estava na Praça da Sé gravando cenas para o documentário “O Avesso do Direito”, sobre a redução da idade penal, quando se deparou com uma dúzia de crianças ao redor de uma jovem.

A mulher de cabelo raspado dos lados, alto em cima e com um quepe de comissária de bordo, topa dar uma entrevista. “A polícia é foda. Manda a gente levantar a mão pra cima. Manda virar de costa. Se tiver dinheiro tem que dar, se não tiver…”, ela diz, enquanto os brincos e alfinetes que usa em ambas as orelhas balançam. Ela se apresenta como Punk. Tia Punk. É Animal, com o mesmo tom afobado de fala.

“A gente rouba pra comprar comida, faz vaquinha. A gente rouba pra comprar cola”, ela diz com o microfone dançando entre as mãos. Descreve como o grupo passa por debaixo das catracas do metrô e de ônibus enquanto todos cantam juntos. “E quem comanda sou eu, a Punk.” O apelido vinha por causa da aparência, similar à de uma cantora de punk rock.

Nessa época, Tia Punk e seus 16 sobrinhos moravam no Cine Paissandu, no largo de mesmo nome, no centro da cidade. O prédio, inaugurado em 1957 e abandonado no fim da década de 1980, tem hall de mármore travertino com 900 m², e comporta 2.196 pessoas na sua sala de projeção. Foi lá que, por anos, ela e as crianças dormiram. Na parede do cinema, corriam livres cavalos pintados pelo artista francês Jean Bosquet.

No vídeo, Animal explica a relação com as crianças de rua. “Eles não têm onde ficar. Moram comigo.” Aponta para um deles e diz que esqueceu seu nome. Alguém grita “É Roberto!”, e então ela continua: “Hoje o Roberto foi espancado. Só porque é preto. Tem que dar carinho pra criança, não espancar.”

Um menino que aparenta ter oito ou nove anos pega o microfone. Fala, olhando para a câmera: “O governo só dá casa para esses ricos. Nós, que é pobre, eles não dá. Dá um chute na bunda de nós e manda a gente sair correndo. Isso é sem-vergonhice. Por que o prefeito não manda fazer casa, construir?”

O discurso da criança continua: “Se eu tivesse um três oitão ou uma Winchester aqui, eu tinha as moral de roubar uma Opala dessa daí. E mandava me levar até a Luiza Erundina ou o Paulo Maluf, só pra mim roubar eles. Porque, para nós, que é sofredor, eles não dão nada. Mas para os ricos eles dão.”

Animal assiste ao seu vídeo pela primeira vez.

Chico Felitti / BuzzFeed News

Animal assiste ao seu vídeo pela primeira vez.

“É uma das cenas mais fortes que eu já filmei”, diz o cineasta, que reencontrou o grupo meses depois, e os levou para a estreia do documentário. As cenas de Animal acabaram não entrando no longa. Mas documentam um período de sua vida que ainda duraria algum tempo.

Dois anos depois desse vídeo, Animal estaria numa pista de corrida, treinando com alguns dos melhores atletas do país. Mas estaria longe de ser um deles. Sua vida mudaria muito, mas muito aos poucos.

CAPÍTULO 3 – COMO SE FAZ UMA CORREDORA

A primeira corrida de Animal na pista do Ginásio do Ibirapuera era de 3.000 metros, um décimo do que ela faz hoje num dia bom, e foi um fiasco.

Isso porque o técnico Wanderlei Oliveira aplicava em todo novo atleta que chegava na sua equipe o teste dos três mil. São três mil metros que o corredor deve fazer com toda força de suas pernas e de seus pulmões, para o treinador saber em que nível ele se encontra, e projetar seu potencial. Animal não terminou o teste dos três mil. “Ela parou nos mil e quinhentos, xingando”, diz Oliveira, que é uma peça chave na popularização da corrida de rua como esporte.

Oliveira, um homem magro e careca como Animal, não aparenta estar à beira dos 60 anos. Começou a correr incentivado pelo pai, que havia jogado no time do Corinthians campeão do Campeonato Paulista do Quarto Centenário, em 1954. Fundou a Corpore, primeira assessoria de corrida de São Paulo. Montou a estrutura de corrida do Pão de Açúcar (o dono da empresa na época, Abilio Diniz, corria e queria incentivar funcionários). Hoje, o circuito de revezamento da rede de supermercado está entre os maiores do mundo. Mas treinar Animal foi um desafio que se equipara a todos esses, ele diz numa manhã de março.

“O estado dela era deplorável. Uma barriga cheia de vermes. Parecia mulher grávida de quatro meses”, ele diz, sentado na beirada da pista onde tinha treinado, com Animal, até meia hora antes. “As pessoas evoluem, a Ana é um caso desses.” Três meses depois, ela refez o teste dos três mil e completou. “Mal, mas conseguiu”, diz Wanderlei, cortando o ar com a mão direita. Seus movimentos são rápidos e objetivos, como se fossem um recurso finito.

É que a fama de garota-problema chegava antes de Animal nos grupos de corrida. “As pessoas dizem que eu roubava, xingava. E acho que era verdade”, diz Animal, sentada no chão, aos pés de Wanderlei. “Eu não queria que ela treinasse com a gente”, diz o técnico, “mas não pude negar, porque o pedido veio de cima.”

Dias antes do primeiro teste, o celular de Wanderlei tocou — era uma época em que só pessoas muito importantes tinham celular. A pessoa do outro lado da linha disse que era do palácio do governo do Estado. Wanderlei bateu o telefone, achando que fosse um amigo passando trote. O telefone tocou em seguida. De novo, disseram que era do escritório do governador Mario Covas. O atleta desligou o telefone. Quando o celular tocou pela terceira vez, era a voz do governador: “O Covas me disse ‘Você vai falar comigo ou eu vou mandar te prender, seu sem educação. Você vai ajudar a treinar a Ana Luiza Animal”. Fausto Camunha havia apresentado a história de Animal para o governador nesse meio tempo, e Covas havia decidido intervir a favor dela.

E assim a amadora entrou para uma equipe que levava o esporte a sério. Nos primeiros cinco anos, ela tinha o desempenho de um atleta médio. “Era uma pessoa normal.” Wanderlei conta que, na primeira prova que fez com sua equipe, em 1999, saiu gritando: “Sai da frente, seu filho da puta!”.

Mas sua colocação em provas foi subindo conforme o tempo passava. “É um fato raro. A performance dela não caiu com a idade. E hoje ela tem um resultado de nível mundial.”

A corrida de Animal envelhece como um vinho, explica o técnico. O rendimento dela caiu pouco (ou não caiu, dependendo do tamanho da prova) conforme a idade subia, enquanto a média de tempo dos seus concorrentes em categoria de idade ia subindo. É por isso que em 2018 ela consegue subir em mais pódios do que em 2008, ou do que em 1999.

“Eu fui aprendendo a fazer as coisas direito”, ela explica. E aprendeu também qual é seu mundo dentro da corrida. Animal faz qualquer prova de meia-maratona para baixo. Ganhou provas de 1.500 metros, 5km, 10km, 15km e 21km, as meias-maratonas, que são suas prediletas. Fez quatro maratonas, as provas clássicas de 42km. Mas, se puder, nunca mais fará outra. “Eu não tenho saco. Sou ansiosa, quero chegar logo, e maratona não chega nunca”, diz ela quando está chegando ao décimo quilômetro do dia, na pista do ginásio. Mas ao menos uma maratona serviu para algo: foi correndo a prova completa que conheceu Fernanda Paradizo, sua melhor amiga.

“Ela simplesmente aparecia”

Fernanda é uma das fotógrafas de corrida mais famosas do Brasil. Mas, antes de começar a clicar, a jornalista corria. Corria na equipe comandada por Wanderlei, porque foi funcionária do Pão de Açúcar por quase 20 anos — a equipe que acolheu Animal a pedido do governador.

“A gente não chamava ela, ela simplesmente aparecia na pista.” Mas o vínculo demorou para ser criado. “Eu já via ela nas provas, só que ela era extremamente arisca: as pessoas tinham receio e medo”, diz Paradizo, que não usa maquiagem no rosto anguloso e tem o cabelo liso cortado reto na altura do queixo (o que não se vê com frequência: ela costuma andar de cabelos presos ou de bonés, e se move rápido como alguém que usa tênis de corrida para todas as tarefas da vida).

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A aproximação entre as duas se deu na primeira ida de Animal para Nova York, em 1999. O então secretário Fausto Camunha tinha anunciado aos quatro ventos que Animal iria para os EUA correr. Mas, quando conseguiram as passagens, as inscrições para a prova já haviam se esgotado.

Um dos atletas da equipe de Wanderlei adoeceu no dia anterior à prova. Relutou muito até jogar a toalha e dar seu número de inscrição para Animal. Ela correu sua primeira meia maratona internacional com o nome de outra pessoa. Animal cumpriu a prova em 3h34min — foi a melhor marca da vida do corredor que cedeu seu número para ela, e que não quer ser nomeado, porque emprestar uma inscrição é punível no circuito de corridas.

No dia da prova, a temperatura era negativa e Animal, que não interagia com as outras pessoas do grupo, apareceu para correr só de regata. Fernanda viu aquilo e mobilizou um mutirão. Cada pessoa emprestou uma peça de roupa para ela fazer o trajeto entre a biblioteca municipal de Nova York e Staten Island, ponto de largada da prova. As duas começaram a conversar. E não pararam desde então.

A proximidade foi crescendo com as viagens. “Na hora de dividir o quarto ninguém quer ficar com ela. E as pessoas acham que ela me ouve mais.” As duas dividiram quartos em Edimburgo, Londres, Havana, Cidade do Cabo, Miami.

A partir do segundo ano de convivência, Animal começou a ir viajar com Fernanda, mesmo quando não ia correr. Se a fotógrafa ia fazer a cobertura jornalística de eventos de triatlo, Animal se convidava para ir junto. “Ela ajudava a carregar as coisas, ficava do meu lado.”

Já são 15 anos de amizade. “A Ana é assim: você leva uma vez e ela aparece no dia seguinte sozinha.” Animal passou a frequentar a casa da amiga, no Morumbi. Chegou a ir à igreja com a mãe de Fernanda, por mais que só acredite no rock’n’roll.

“Ela tem um coração que é um absurdo”, diz Fernanda, que conta de uma vez em que perdeu seu telefone, e recusou a oferta de Animal de lhe dar outro. “Ela começou a chorar, e eu tive que aceitar.”

Com o passar das semanas, Animal vai me mostrando esse coração absurdo. A cada encontro, ela me dá um presente. Um cadarço com as cores do arco-íris (“Pra você e pro seu boy!”). Um litro de iogurte de coco que ela ganhou quando se inscreveu numa corrida. Um spray de Gelol. Se nos primeiros encontros ela me cumprimentava com um aceno de cabeça, depois do primeiro mês passa para um abraço. No fim do terceiro mês, ela tenta me dar um selinho a cada encontro, e eu tenho de desviar.

Em 2004, cinco anos depois da entrada de Animal no grupo onde ela aprendeu a correr, a participação passou a ser restrita a funcionários — e o grupo, aos poucos, minguou. Hoje, ela e um punhado de amigos treinam com Wanderlei na pista do Ginásio do Ibirapuera, três vezes por semana. “Mas ela já sabe o que fazer”, diz o técnico, que ainda supervisiona seus treinos, mas acredita que ela tenha pego técnica e disciplina suficientes para levar sua carreira adiante.

Pergunto, na beira da pista de corrida, qual é a vida útil de um corredor. Wanderlei tira do bolso e mostra uma foto de Darcy Leão, um dos maiores atletas (14min20seg para completar 5.000m), que com 74 anos havia acabado de correr por duas horas, ali mesmo na pista. Ana diz: “Vou ser assim. Correr enquanto essas cadelas aguentarem”, e aponta para as pernas.

“Essa aqui ainda vai longe”, diz Wanderlei, com a calma de quem foi superado. Na Meia-Maratona de Buenos Aires, o jogo mudou. Wanderlei liderava a prova até os quilômetros finais. Quando se deu conta, havia sido ultrapassado por Animal. Hoje, a aprendiz tem tempos melhores que os do mestre.

Além da turma da corrida, o círculo social de Animal é completo por Dulce, talvez a pessoa mais próxima dela em 2018. As duas se conheceram uns cinco anos atrás, correndo no estacionamento do ginásio. Ficaram próximas, e hoje fazem provas juntas. Assistem TV juntas. Bolam as fantasias que Animal usa na São Silvestre juntas.

Depois de encontrar Dulce no quarto do ginásio às dez da noite e às seis da manhã, pergunto para Animal se posso ser intrometido. “Mais bocudo do que eu você não vai ser”, ela assente. “Pensei que vocês fossem um casal”, eu digo. “Ai, credo! Eu não! Eu não gosto dessas coisas.” Que coisas? “Sexo. Eu nunca fiz nada.” E oferece a mão, para selar uma aposta. “Me leva no médico e pede pra ele fazer exame. Eu nunca fiz nada.” Ela insistiria na aposta mais algumas dezenas de vezes nos próximos meses.

“Não deixe que ninguém pise!”

É março e eu já pareço ter entrado para o círculo social de Animal. Ela me liga numa tarde de sexta: “Vai fazer o que hoje?”. Digo que vou para São Caetano do Sul, assistir a uma partida de vôlei, para fazer uma reportagem. “Ah, que ótimo, adoro vôlei.”

Ela tinha ligado para oferecer ingressos para o Brasil Open, torneio de tênis que está acontecendo dentro do ginásio, onde ela mora. Mas ela não gosta de tênis. “Não pode peidar, não pode arrotar, não pode respirar. Eu gosto é de esporte de pobre: futebol, vôlei, corrida.”

No Uber que nos leva começa a tocar uma música de Maiara e Maraísa. E diz: “Pelo amor de Deus, moço, troca ou tenho um ataque de pelanca! O-de-i-o sertanejo!”. O motorista ri e desliga o som. Conto para Animal sobre o texto em que estou trabalhando, um perfil de Tifanny Abreu, primeira mulher transexual a jogar no principal torneio de vôlei brasileiro, a Superliga.

Chegamos ao estádio e, mesmo a entrada sendo grátis, a platéia não está lotada. Animal se senta na primeira fileira da arquibancada. E olha para trás a cada vez que o público vaia Tifanny — e parte do público vaia Tifanny a cada vez que ela rela na bola.

Animal é a única pessoa a incentivar as sacadoras do time visitante. Mas no estilo Animal. Grita: “Vai, bota braço nessa porra, usa essa força!” E comenta que, se fosse técnica, faria todas pegarem mais pesado na academia e correr ao redor da quadra “até cair”.

Em um intervalo do jogo, uma equipe de filmagem se aproxima. Animal se joga na frente da câmera do “Profissão Repórter”, que também está lá cobrindo o jogo de Tifanny: “Ela é incrível. Ela venceu muito para ser esportista”, diz Animal para a repórter. Preciso me esforçar para lembrar que ela está falando de outra pessoa, não de si mesmo.

Depois que dá a entrevista, Animal se volta para mim: “E a Karol Conká, cê nunca vai fazer uma matéria com ela? Queria tanto conhecer ela”.

O jogo termina com uma derrota do Bauru, time de Tiffany. Animal entra no vestiário logo depois das jogadores. Eu e a equipe da Globo e uma mulher de meia-idade loira vamos atrás. Após 40 minutos esperando na porta do vestiário, Tifanny aparece para dar entrevistas rápidas.

A primeira a se manifestar é a desconhecida, que se revela estrangeira e repórter do New York Times. Pega Tifanny pelo braço e diz que quer fazer uma entrevista mais exclusiva. Depois de cinco minutos monopolizando o pouco tempo de que a artilheira dispõe, e deixando na espera a equipe da Globo e os outros repórteres, é Animal quem interrompe a conversa. Ela se coloca no meio da repórter e da jogadora e dispensa a americana: “Sai daqui, cê nem sabe o que tá falando”. A americana vira as costas e sai andando, murmurando algo.

Animal se volta para Tifanny. “Bicha, não deixe que ninguém pise em cima de você não, que ninguém merece. Tá boa?”, fala com a mão na cintura. Tifanny, até então séria, gargalha. As duas fazem uma selfie juntas, com a jogadora de vôlei vergando seus 1,88m para ficar na altura do metro e meio da corredora. Animal vê a foto na tela do celular e se despede: “A senhora arrasa!”.

CAPÍTULO 4 – SHOW DO DÉCIMO DE MILHÃO

Animal está de top preto e short de corrida sentada em um palco, sob a luz de dezenas de holofotes. Seu cabelo está com três dedos de comprimento, empapado para o lado com gel. A câmera para de mostrá-la, e passa para o apresentador Ratinho, que pergunta: “Valendo cem mil reais, ‘Você acha que os anjos protegeram seu caminho?’”. Ela não pensa meio segundo: “Sim”.

Uma voz robótica responde em um alto-falante: “Ratinho, essa resposta é…”, e, depois de dez segundos de suspense, “…verdadeira!”. Cifrões em animação computadorizada caem na tela. Animal se levanta. Pula. Abraça Ratinho. Abraça Wanderlei. Abraça Heloísa. Abraça Fausto Camunha.

A imagem parece saída de um sonho, se não estivesse na tela do meu computador, com a Animal de carne e osso rindo atrás de mim. No dia anterior, correndo, perguntei para Animal do que ela vivia. “Eu ganhava o patrocínio do Banco do Brasil até o ano passado, e tenho um dinheiro guardado.”

Descubro na internet que não era bem patrocínio do banco. Por indicação da Confederação Brasileira de Atletismo, ela foi contemplada em 2010 com uma bolsa de R$ 2.490 mensais do Talento Esportivo, um programa de incentivo ao esporte do governo do Estado de São Paulo. Mas em 2017 as regras de apoio mudaram, e um atleta só poderia receber a Bolsa Talento Esportivo por cinco anos seguidos — Animal já chegava no seu sétimo ano, e perdeu o direito ao dinheiro.

Perguntei então do que ela vivia há quase um ano, desde que o repasse secou. “Eu já fui rica, né? O Ratinho me deu R$ 100 mil. Tem guardado ainda.” Meu ceticismo não sobrevive a uma visita ao YouTube. Está lá o programa “Nada Mais que A Verdade”, de 21 de janeiro 2010, nos seus seis blocos.

O game show é parecido com o “Show do Milhão”, e foi inclusive apresentado por Silvio Santos antes de Ratinho assumir a frente do programa, usando um paletó e camisa, mas dispensando a gravata. Na edição de Animal, estavam no palco Fausto Camunha, o secretário municipal de Esporte que virou amigo de Animal, seu treinador, Wanderlei Oliveira, e a madrinha Heloísa Galvão.

O show é simples: apresentador faz perguntas para entrevistado e, se ele disser a verdade, vai acumulando mais dinheiro, até chegar aos R$ 100 mil. A bancada de amigos dá sugestões para o participante. Para participar, Animal passou por um polígrafo, o detector de mentiras, nos bastidores do programa. Respondeu às mesmas perguntas que Ratinho faria em frente às câmeras, enquanto sua atividade cerebral e seus batimentos cardíacos eram monitorados, para detectar desassossegos que denunciassem nervosismo por estar mentindo. As respostas no palco eram só encenação.

“Não fiquei nervosa, nada. Eu tava é de saco cheio daquilo”, ela conta. “Não fico nervosa com ninguém. Talvez com a Karol Conká. Você conhece ela?”

Digo que não conheço, e voltamos a falar de Ratinho. Antes da pergunta final, que fazia um trocadilho com “dos Anjos”, o sobrenome que ela não usa, Animal tinha respondido a uma dúzia de questões. Coisas como “Você já remexeu o lixo em busca de comida?”, enquanto uma música com violinos tocava ao fundo — a resposta, considerada verdadeira pelo computador de voz grossa, foi “sim”.

O programa foi o momento em que essa corredora profissional ganhou mais dinheiro na vida, mas não está muito claro como ela foi parar lá. “Tinham prometido que iam dar uma casa para ela no Programa do Gugu. Deu um problema de produção e não rolou. O programa do Ratinho veio meio como uma compensação”, conta Fernanda Paradizo.

A história é nebulosa, e o canal não comenta, mas fato é que meses antes Animal apareceu no programa Domingo Legal, do mesmo canal, e não ganhou casa nenhuma. Meses depois, viria a participação no Nada Além da Verdade, que normalmente recebia celebridades como Clodovil e Dercy Gonçalves.

E também é fato que ela ganhou o prêmio, que Ratinho bradava ser entregue “em barras de ouro!”. A quantia, na verdade, foi depositada em uma conta do Bradesco. Em 2010 Animal tinha R$ 100 mil na conta, mais uma bolsa de quase R$ 2.500 que pingavam todo mês.

Animal poderia ter realizado o sonho da casa própria com o dinheiro nessa época. “Eu insisti que ela comprasse um apartamento, mesmo que continuasse morando no ginásio. Poderia ter colocado para alugar”, diz a madrinha Heloísa Galvão. Mas não realizou o sonho da casa própria. “Eu ia gastar tudo de uma vez, e depois ia viver do quê?”, Animal se pergunta. Preferiu guardar o dinheiro. “E ainda tem lá. É disso que eu tô vivendo.” Ela não sabe quanto dinheiro resta, oito anos após ter ganho um décimo de milhão.

Príncipe Harry e Magic Paula

Eu não acreditaria nessa história, e em tantas outras que Animal conta, se não houvesse documentos ou testemunhas que as comprovam. Muitas das passagens da vida parecem surreais demais para de fato terem acontecido.

Em 2012, por exemplo, Animal encontrou o Pŕincipe Harry. Ela e Fernanda estavam na Inglaterra para uma prova beneficente. Como Fernanda fazia cobertura jornalística do evento, tinha acesso a uma área reservada para VIPs. Animal entrou atrás dela. “Fiz um carão e ninguém me parou.” Talvez porque estivesse com uma cartola alta com as cores da bandeira inglesa e um conjunto esportivo com as cores do Brasil. O filho mais novo da Princesa Diana apareceu. Animal começou a gritar “Hello! Hello!”, e o príncipe, então com 27 anos, veio na sua direção. Ganhou um abraço de Harry. “Eu me mijei toda!” Fernanda confirma a história, assim como duas outras pessoas que estiveram na prova e não são amigas de Animal.

Há ainda o causo de como Fábio Jr. teria pago a passagem para ela correr sua primeira maratona, em Florianópolis. Ela tentou provar com uma foto de si mesma, bem mais jovem, sentada no colo do cantor. Não convencido, arranjei o telefone do cantor de “dois amantes, dois irmãos”. Fábio Jr. não confirmou nem negou a história.

Animal com o apresentador Gilberto Barros, o Leão.

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Animal com o apresentador Gilberto Barros, o Leão.

E, para coroar as passagens surreais de sua vida, há o episódio de como Animal deixou de morar no Centro Olímpico, dois anos depois de sair das ruas, em 2001, e foi parar no único quarto ocupado do Ginásio do Ibirapuera.

Depois que Celso Pitta saiu da prefeitura, Fausto Camunha perdeu seu cargo. A gestão Marta Suplicy apontou Magic Paula para dirigir o Centro Olímpico. Semanas depois da posse da jogadora de basquete aposentada, Animal recebeu um ofício avisando do seu despejo. A carta dizia que, “por não ter desempenho olímpico, o atleta não pode morar no centro olímpico”.

Animal levou bastante para o lado pessoal. Ameaçou Magic Paula aos gritos, e correu atrás dela com o punho levantado num corredor do Centro Olímpico. Ela e amigos dizem que Hebe Camargo, então na TV Band, chamou as duas para apaziguar os ânimos. Ou a conversa nunca foi ao ar, ou foi conduzida nos bastidores, porque não encontro esse vídeo.

(Ao saber do despejo, Fausto Camunha entrou em contato com o então secretário estadual de esporte, Marcos Arbaitman, que convidou Animal a morar no quarto no Ginásio do Ibirapuera que ela ocupa de 2001 até hoje, sem nenhuma documentação que garanta seu direito de estar lá.)

Escrevo um e-mail para Magic Paula perguntando sobre a época dela à frente do Centro Olímpico, e mais especificamente sobre a expulsão de Animal. Paula me responde dizendo que foi uma decisão da secretaria, e que, se eu quiser, posso conversar com funcionários que trabalham no Centro Olímpico desde então. Ou procurar no arquivo de ofícios do lugar. A rusga de fato existiu.

O checão não caiu

E o dinheiro de Ratinho também de fato existiu, mas parece ser um patrimônio que está se desfazendo.

Até porque é difícil ganhar dinheiro com provas de corrida quando se tem 55 anos. Mesmo para um campeão de categoria, como Animal. A maioria das provas que dão prêmios em dinheiro são maratonas, que ela não faz. E, mesmo que fizesse, os checões de cinco, dez ou vinte mil dólares são reservados para os primeiros colocados entre todos os participantes. São raras as provas que recompensam vencedores de categoria por idade, caso de Animal.

Uma das últimas vezes que ela ganhou para correr foi em 2006, na meia-maratona de Santiago, no Chile. Ana conseguiu ir porque os amigos do grupo de corrida fizeram uma vaquinha. Foi a mulher mais rápida de todas as categorias. Mas ganhou e não levou. Posou com cheque de trezentos dólares, no topo do pódio, só que o dinheiro nunca caiu na conta.

Outra possível fonte de renda seria fazer comerciais, descolar um patrocínio. Mas, atualmente, há só uma agência de viagens do Rio que paga para a atleta ir correr em Nova York todos os anos.

Um jornalista que cobre atletismo há três décadas me diz que o problema do mercado com Animal é a idade. Uma empresa, diz ele, dificilmente quer se associar com alguém que passou dos 50. “Se as marcas prestassem atenção na Ana, veriam que ela tem mais mídia espontânea. Ela sai mais em revista e jornal que qualquer um dos atletas que eles patrocinam”, diz Wanderlei, que aos 60 anos é o treinador mais gabaritado da Nike no Brasil.

As marcas, assim como a maioria dos corredores de rua, parecem satisfeitas com um sumário da vida de Animal. Ela superou a vida das ruas com ajuda da corrida. Ela é um amuleto do esporte como superação, e não uma das mulheres mais velozes da sua idade. A obsessão biográfica com esse período da vida da atleta chegou ao banco de imagens Getty Images, um dos maiores do mundo, que vende uma foto de Animal pulando, com as tranças cor de rosa no ar, com a legenda:

“Ana Luiza dos Anjos Garcez ‘ Animal ‘ at the Nike Human Race in Sao Paulo , Brazil , August 31st , 2008. She used to be a homeless and started to run because she was used to escape by running from the policeman”

Ou: “Ana Luiza dos Anjos Garcez, a ‘Animal’, na corrida Nike Human Race em São Paulo, em 31 de Agosto de 2008. Ela foi sem-teto e começou a correr para escapar de policiais”

Chico Felitti / BuzzFeed News

Mas não é só preconceito. Há peculiaridades da atleta que dificultam os negócios. “Quando a gente vai tentar patrocínio para ela, a gente se depara com essas questões. As pessoas acham ela bocuda, o que ela é mesmo”, conta Fernanda, que junto com o técnico Wanderlei atua como empresária informal de Animal. Nenhum dos dois ganha nada pelo trabalho.

Já houve tentativas que não foram para frente por causa da atleta. A tecelagem da família de uma importante editora de moda ia fazer roupas de tecidos especiais para Animal em cores como preto e cinza. Mas a atleta só quer correr com as cores da bandeira do Brasil.

Então, com a falta de patrocínio e o fim da bolsa, Animal vem queimando as reservas.

CAPÍTULO 5 – UMA NOITE NO IBIRAPUERA

Parece que o único momento fresco dos últimos dias de fevereiro, quentes como uma panela de pressão, é às quatro da manhã. Nessa hora, o ginásio do Ibirapuera cheira a goiabas que caíram do pé e ainda não apodreceram, e eu espero olhando para um portão metálico de correr, por onde geralmente entram os carros que vão parar no estacionamento. Mas ele está fechado.

Animal tinha marcado comigo às quatro da manhã, em ponto, para me mostrar seu treino matinal quase diário. Ela só descansa aos domingos. É sexta-feira, então ela deveria estar saindo. Bato palmas, na esperança de que alguém esteja na guarita. A segurança Katia, uma ruiva de farmácia, aparece. Confirma que é por ali que Animal sai toda manhã. “Mas umas cinco, cinco e pouco. Nunca assim tão cedo.”

São quase quatro e vinte quando ela aparece. “Oi! Eu tava arrumando as minhas coisas, por isso só saí agora.” Pergunto por que ela faria faxina às quatro da manhã, sem controlar uma expressão de desconfiança. Já não tenho medo de peitar os blefes dela. Ela dá risada. “Tava sim, passando pano de chão”, diz meio rindo, já começando a correr.

Chico Felitti / BuzzFeed News

Passamos pela Assembleia Legislativa, que chama de “a casa dos ladrões”, pelo Obelisco do Ibirapuera (“aquele pintão”) e pelo Autorama, um estacionamento próximo ao parque que é usado como ponto de paquera e de sexo por gays há mais de trinta anos (“que-ri-da, as coisas que eu já vi aqui!”).

A primeira corredora da manhã tenta entrar no parque por um portão ao lado da marquise. O guarda, que estava sentado com a cabeça pendendo do pescoço mole, se apruma. Ajeita o boné com uma mão e passa a segunda nos olhos inchados. “Aonde você vai? O parque só abre às cinco.” Animal dá meia volta: “Merda, ele nunca acorda”. E, quando ele não acorda, Animal é a primeira pessoa a entrar no parque Ibirapuera, ainda fechado, e correr por duas horas.

Nessa altura do campeonato, chegamos ao terceiro mês de convivência, e Animal já me aceitou na sua vida. Nos falamos por telefone pelo menos duas vezes por dia, geralmente por iniciativa dela. Sei que, quando o nome Ana Animal estiver na tela e eu deslizar o dedo sobre o celular, vou ouvir uma melodia conhecida: Sol, lá, do, ré, si, lá, si, dó, seguida de uma voz que diz “Chamada a cobrar, para aceitar continue na linha após a identificação”.

Outras vezes, ela liga de números desconhecidos. Nunca diz “oi”, e fala o assunto da ligação à queima-roupa. Os temas vão de “Achei uma peruca que comprei no Japão e tenho que te dar, pra você usar no Carnaval” a “Liga na televisão agora! No sete! Não, no quatro! Vai passar o homem mais alto do mundo. Ele é muito feio, mano!”. O tema mais comum, entretanto, é uma variação de: “O que cê tá fazendo?”.

Muitas das ligações terminam com ela indo até onde estou, ou nos encontramos para conversar. Como outros atletas profissionais que conheci, a agenda de Animal é preenchida apenas por treinos e viagens de competição. Por mais que ela se dedique diariamente ao esporte, por várias horas, o dia é composto por 24 delas. E sobra muito tempo para lazer. No caso de Animal, lazer é igual a passear.

Quando está entediada, ela se pinta, coloca suas roupas mais coloridas de corrida e vai para a avenida Paulista para “dar pinta”, como define. Dorme no sofá da Fnac no meio da tarde. Faz amigos em lugares improváveis. Uma das pessoas mais próximas é Edson, um o dono de um box de venda de jóias e bijuterias em uma das galerias da avenida Paulista que hoje vendem mais capa de celular do que qualquer outro produto. É na galeria de Edson que ela comprou muitos óculos da sua coleção, de quase cem.

No impeachment por tédio

Animal também entra de coadjuvante em manifestações ou qualquer evento que lhe ofereça câmeras. Em junho de 2017, ela apareceu numa reportagem da Veja São Paulo, sob o título “Manifestantes deixam emprego para acampar na Paulista”. O texto narra a vida dos ativistas na frente do prédio da Fiesp, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, que há pouco tempo havia criado o mascote da campanha, um pato.

Uma foto de Animal saiu no site da Vejinha. Para passar todas as tardes junto com os acampantes pró-impeachment, a corredora fez um vestido frente-única com uma bandeira, levou outra bandeira hasteada em um cabo de vassoura e botou um par de Crocs verdes nos pés. O texto pergunta: “Até quando ficarão ali? “Enquanto não vir a Dilma fora, não vou sair daqui”, afirma Animal, identificada como “a atleta Ana Luiza dos Anjos Garcez”.

Ela, que não vota, explica o súbito engajamento político: “Eu tinha feito a cirurgia [para retirada] do cisto no ovário, o único problema de saúde que já tive na vida. Não podia correr, tava sem nada pra fazer e fui para lá”. Ela não gosta de Dilma. Nem de Lula. Nem de Doria. Mas gosta de Celso Pitta (morto em 2009), o prefeito que a ajudou a sair da rua.

Em evento ao lado de Celso Pitta.

Reprodução

Em evento ao lado de Celso Pitta.

Na corrida de madrugada, depois de batermos com a cara no portão, damos a volta pela avenida Pedro Álvares Cabral. Ela me instrui a correr no corredor de ônibus. Cinco segundos depois, me manda sair de lá. “Hoje é sexta, tem um monte de animal que sai pra beber e depois atropela a gente. Na semana passada vi um, aqui do lado.”

Chegamos ao portão do Prédio da Bienal, que está fechado, mas já agitado.

Há cinco homens, todos aparentam ter mais de 50 anos, enfileirados no portão do parque. É a Turma das Cinco, um grupo que chega uma hora antes da abertura do Ibirapuera e fica em pé, conversando.

“Edilson, o Corinthians ganhou ontem?”, pergunta um deles.

Animal chega fazendo arruaça. “É você! Eu não te reconheci. Mas você era enorme de gordo, diz aí.” Ele ri. “É, eu perdi bastante peso.”

“Foi um a zero”, responde Edilson, após a interrupção da atleta.

Todos estão com roupas de corrida, menos um homem de cabelo branco, cavanhaque e um charuto nos lábios. Esse está com uma roupa de safári, sentado num quadriciclo Roadster, de R$ 80 mil. “Eu sou o melhor advogado que eu conheço”, ele diz quando somos apresentados.

Um Honda Civic prata para em frente ao grupo, dois minutos antes de o relógio chegar às cinco, e dele desce um homem que aparenta ser bem mais velho que os sexagenários. “Eu não compito mais”, ele diz, jogando as mãos para o alto. “Outro dia cheguei às quatro e vinte e peguei o oitavo lugar, vê se pode? Se quiser pegar o pódio de quem chega primeiro, tem que chegar antes das quatro.” O veterano frequenta a entrada fechada do parque há 16 anos. “É um grupo unido, a gente é solidário um com o outro, por mais que não se veja em outro lugar.”

O decano, de 86 anos, conhece Animal há décadas. “Essa daqui nasceu pra correr.” Os dois se abraçam, mas logo estão em movimento.

São cinco da manhã. O segurança retira os três cones laranja e as pessoas entram, num cortejo que parece a Corrida Maluca em câmera lenta. “São Paulo tem lugar pra todo louco”, comenta o advogado do charuto, que vai virar seu quadriciclo e voltar para casa — ele bate ponto ali “só pelo papo”.

Enquanto a Turma das Cinco vai pelas vias principais, Animal se embrenha pela grama para chegar ao seu lugar de treino. Estamos passando por uma paineira quando um habitante do parque sai de um arbusto e para bem na nossa frente. É um gambá-de-orelha-preta, ou saruê, como Animal começa a berrar quando dá de cara com um. O bicho tem o tamanho de um cachorro de pequeno porte e seria fofo, não fosse por um rabo que é do tamanho do seu corpo.

“Saruê! Saruê! Ai, que nooojo essa bunda pelada”, Animal diz, contraindo a cara enquanto começa a correr, mais pela necessidade de sair de perto do bicho do que para começar o treino.

Chico Felitti / BuzzFeed News

Animal segue para os fundos do Prédio da Bienal, desenhado por Oscar Niemeyer. É lá que fica uma rampa de oito lances que ela usa como treino de resistência. Desce e sobe, em zigue-zague, por uma hora. Ou quarenta voltas, o que chegar antes.

Eu me sento no chão e ligo o cronômetro. Primeira volta: um minuto e trinta. O céu de preto passa a azul-marinho. Segunda volta: um minuto e vinte e oito segundos. O céu está roxo, com uma mancha laranja que ameaça subir no horizonte. Um minuto e vinte e sete segundos. Está mais frio, como ela avisou que ficaria, quando a gente saiu do ginásio. 1min28seg16, o céu finalmente decidiu ficar de uma cor, e é cinza. 1min26seg10: Animal vai ficando mais rápida. “Eu tô aquecendo”. 1min26seg9. Chegam outros dois corredores, homens de meia idade que, enquanto ela está descendo, ainda terminam de subir. 1min26seg2: um dos homens da Turma das Cinco já está indo embora, levando seu poodle embaixo do braço. 1min26seg1: “Vai tar muito frio em Nova York? Tô com medo”, ela fala enquanto corre rampa acima. Ela havia decidido correr a Meia-Maratona de Nova York, uma das mais famosas do mundo. Entre a volta 13 e a 14, ela para por 53 segundos e 76 centésimos. Corre até o arbusto perto da rampa. E em menos de um minuto está de volta ao seu ritmo.

Ela faz as 40 voltas em 57 minutos, 36 segundos e 85 centésimos, e ri quando eu canto o tempo, abaixo de uma hora, sua marca habitual: “Rendi, filho! Eu quis te impressionar”. Como se precisasse.

Vou embora sob um cobertor de garoa, para pegar uma gripe que me deixaria os próximos dois dias de cama — no segundo deles, chego em casa às 22h30 e Animal está sentada na portaria do prédio, dormindo numa cadeira, com a cabeça pendendo do pescoço, porque foi me levar um xarope expectorante de surpresa e eu tardei a chegar.

Quando termina o treino matinal, Animal segue para correr mais uma hora, dessa vez no plano. Enquanto cruzo andando a cidade às seis da manhã, e passo pelo Obelisco e pela Assembleia, penso que ela faz o impossível parecer só a primeira tarefa do dia.

CAPÍTULO 6 – “ÉNIMOU” CONQUISTA A AMÉRICA

A ilha de Manhattan tem 21 km de extensão, a exata medida de uma meia maratona. Seria conveniente que a meia maratona de Nova York, cidade da qual a ilha faz parte, a cruzasse de fio a pavio. Mas em 2018 o percurso da prova mudou, e passou a englobar também o Brooklyn, e isso aflige Animal. “Meu, mudou todo. Antes, era só na ilha que a gente corria. Agora é um monte de pirambeira, cruza ponte e o caralho”, ela conta em fevereiro, quando avisa que ia pagar uma passagem de R$ 2.000 do seu próprio bolso para ir à América, tentar vencer a prova na categoria etária. Decido ir junto.

Animal me indica a agência de viagens especializada em turismo de corridas com quem ela sempre vai a provas internacionais. Elizabet Olival, a dona da agência Kamel, é a única pessoa que mantém negócios com Animal no momento. A empresa a leva para a maratona, em novembro, com todos os custos pagos, para ela agir como animadora do grupo, que chega a ter 300 pessoas. “A Ana funciona porque é espontânea. Ela traz uma energia, as pessoas olham para ela e depois olham para si mesmas”, define Bet. Para a meia-maratona, a empresária ofereceu a Animal o hotel e a taxa de inscrição na prova, de US$ 150.

No dia do check in, 16 de março, a recepção do três estrelas está coalhada de pacotes de compras que os hóspedes fizeram pela internet e pediram para entregar no hotel. Há três TVs de 40 polegadas. Carrinhos de bebê. Caixas e caixas de tênis de corrida.

Há 200 brasileiros no grupo, que se dividem em quartos duplos, triplos e quádruplos. Animal e a fotógrafa Fernanda são as únicas que ficam em um quarto cuja placa na porta diz “suite premium”. A suíte premium, no caso, são dois quartos comuns com um banheiro no meio. Um deles tem um beliche (Animal ocupa a cama de cima, e Fernanda, a de baixo) e o outro tem uma cama de casal, onde fica uma outra funcionária da companhia de viagem.

Meu companheiro de quarto é um engenheiro sexagenário e maratonista que admira Animal. Admira a ponto de ficar feliz quando conto que ela passou pelo quarto e pegou uma garrafa d’água dele, que estava num pacote com seis. “Eu já fiz muita foto com ela. Essa garota é uma história de superação. Diz para ela que eu sou fã.”

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Ela conquista novos fãs na rua, enquanto anda com um agasalho da equipe brasileira de atletismo. Turistas param para fazer foto, por causa do cabelo, metade verde e metade amarelo, pintado na Galeria do Rock. Acham que o cabelo e a roupa são em homenagem ao Saint Patrick’s Day, festa de São Patrício, padroeiro da Irlanda, que é comemorada um dia antes da maratona. Vestir-se de verde é uma tradição do feriado.

“Você é africana?”, pergunta uma irlandesa loira que parece ter, no mínimo, três vezes seu peso, enquanto Animal anda pela rua. Ela responde com uma gargalhada. O inglês de Animal se resume a “hello” e uma expressão peculiar. Ela geralmente chega nos lugares falando alto “squeeze me!” (“me aperta”), em vez de “excuse me” (“com licença”). Os locais riem.

No segundo dia de viagem, encontro Animal numa loja gigante de esportes chamada Paragon. Ela está no caixa, pagando uma conta de duzentos e vinte e três dólares em meias pretas. “Cansei de lavar meia branca, dá trabalho demais!”

É a décima vez que Animal vai para Nova York. Mas ela conhece poucos pontos turísticos da cidade, além do Times Square, onde quase sempre fica hospedada, e da loja de M&Ms, onde acaba comprando um quilo de pastilhas de chocolate — ela já me ofereceu as do ano passado, que ainda estão guardadas numa mala no seu quarto.

A primeira vez que foi para Nova York foi também a primeira vez que saiu do Brasil, em 1999. Fausto Camunha, então secretário de esporte municipal de São Paulo, providenciou as passagens de graça e foi com ela para o aeroporto de Cumbica. Perguntou quem era o comandante do voo da Varig e pediu que ele a ajudasse a encontrar o casal de russos, amigos de amigos dele, que ia recepcioná-la no aeroporto. Animal saiu da aeronave de mãos dadas com o comandante, e só soltou ao ver os anfitriões.

Ela passou uma semana à base de banana, porque achava a comida muito enjoada. Ainda assim, correu a prova e simulou uma dor de cabeça para não ter de ir embora para o Brasil. “Eu queria tanto ficar, aqui é que as coisas acontecem.”

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Dezenove anos depois, passou a ir para os EUA com frequência. Faz quatro anos que suas idas à cidade são anuais — pelo menos até as suas economias permitirem. Mas ela não viu muitos dos pontos turísticos locais. Quando viaja, é para correr e só. O lugar que ela mais frequenta fica a dois quarteirões do hotel, e se chama Mama Sbarro, um restaurante de comida italiana a quilo. “Eu só como aqui, sou fresca com comida”, diz Animal, em frente a um prato de salada Caesar, pene à bolonhesa e um pão de alho. O campeão Marílson Gomes dos Santos, único brasileiro a vencer a Maratona de Nova York, em 2008, também come no quilo quando vai correr na cidade.

Assim que Animal passa pelo bufê, paga seu prato e chega à mesa, o garçom deixa dois canolis de creme e dois de chocolate em um prato de plástico. “It’s for you, my friend”, diz o homem, que lembra um Robert De Niro rechonchudo. “É para você, minha amiga.” Ela ri.

Leva os canudos doces para o quarto de hotel. Mas os deixa por lá. Não janta, só come bolacha cream cracker de um pacote que carrega para cima e para baixo, junto com um galão de cinco litros de água de que bebe no bico.

Às quatro da manhã do dia da corrida Animal já está andando pelos corredores. Ela bate na porta do meu quarto. Não ouve resposta e, em dois segundos, bate de novo. “Rapaz, eu tô numa ansiedade. Vou ter um ataque de pelanca. Só quero que chegue logo.” Não são nem cinco da manhã quando chega o ônibus que vai levar o grupo ao Brooklyn, onde a prova começa.

Às 5h12, o ônibus sai da escuridão da rua 48 e, menos de um minuto depois, parece que o Sol já nasceu. O veículo sai da rua silenciosa e mergulha na luz dos telões do Times Square. Animal está mais acesa do que os anúncios. “Bota a mão no meu peito”, diz, enquanto conduz a palma para cima do osso externo. Há um trote debaixo da sua pele.

Ela senta e fica olhando pela janela. “Tá chegando já? Ai, caralha, tá chegando?”

Assim que o ônibus estaciona perto do Museu do Brooklyn, 40 minutos depois de ter saído, Animal se levanta e começa a tirar camadas e camadas de roupa. Embaixo do casaco, há um conjunto de helanca verde e amarelo. Depois, está com outro conjunto, de um tecido tecnológico que parece papel e se chama Tyvek. Ela tira todos, menos o conjunto branco. Conta que está com um macaquinho por baixo. “É a primeira vez que eu vou correr sem sunquíni. Vamos ver”, diz, enquanto corre para fora do ônibus.

Uma onda de ar gelado recebe quem desce do ônibus. Uma dúzia de atletas decide dar meia-volta, e ficar dentro do veículo até o último momento, para dali correr até a linha de saída, sem se aquecer. Outros entram nas poucas lojas abertas antes das sete da manhã. Um Dunkin’ Donuts vira refúgio de dezenas de atletas, que se espremem no café sem consumir nada e lotam o espaço diminuto de línguas diferentes. Mas Animal não busca abrigo. Coloca na cabeça uma balaclava, gorro que só deixa os olhos expostos — a touca ninja dos motoboys.

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Assim que sai, tira o conjunto e fica vestindo apenas macaquinho com as cores da bandeira brasileira. Enquanto ela vai com braços e pernas descobertos, a maioria das pessoas veste casacos que vão jogar no chão na hora da largada, ou nos primeiros quilômetros. As roupas descartadas são doadas para instituições de caridade. “Se você entrar lá, pega umas coisas bonitinhas para mim no chão?”, Animal pede quando sai correndo, só de macaquinho e balaclava, para além dos bloqueios policiais, onde só entram atletas.

Saio às 6h50, e aposto uma corrida com ela, indo de transporte público da linha de saída para a de chegada. Levo meia hora para ir do Brooklyn para o meio de Manhattan. Os metrôs A e C estão fechados, porque em obra, e a linha 1, que pego para subir do Times Square para a rua 75, beirando o Central Park, demora mais de 20 minutos para passar. O percurso de trem leva uma hora e meia: se eu tivesse saído junto com a largada da prova, poderia ter demorado mais do que os corredores.

Animal larga às 7h30 em ponto. Corre em jejum, a não ser pelo litro de água que engoliu às três da manhã. Durante a corrida, não para nem para molhar a boca. Corre colocando e tirando as luvas que ficou em dúvida se usava ou não. “Quando eu punha, apertava, se eu tirava, parecia que a mão ia cair de frio.” A partir da metade da prova, ela prefere enfrentar a sensação de que os dedos estavam sendo serrados. “Um frio do cão, eu precisava olhar pra ter certeza que não tavam sangrando.”

O novo trajeto da prova, inaugurado em 2018, passa pela Manhattan Bridge, ponte suspensa que oferece uma das melhores vistas de Nova York. O engenheiro com quem divido o quarto parou a prova para fotografar o nascer do sol ali. Mas Animal, não: “Dizem que é lindo. Lindo pra quem? Pra quem não dá resultado, eu não vou olhar nada, quero é tratar de correr”.

No quarto final da prova, a temperatura comeu a sensação de outra parte do seu corpo. “Depois da ponte, o pé morreu. Eu corri pisando na minha canela.” Foi sem sentir mãos nem pés que ela deu uma volta por meio Central Park, trecho final e mais íngreme (ou mais “Ingrid”, como ela define) da corrida.

Chego ao trecho final da prova, na rua 75 West com o Central Park, apressado. São quase nove da manhã, e em questão de minutos ela pode chegar. Uma pequena multidão espera para entrar no parque. Policiais revistam bolsas e mochilas, enquanto pastores alemães e labradores a serviço da segurança pública focinham quem passa. “Bem-vindo à nossa nova cidade”, bufa uma mulher que deve ter mais de oitenta anos e usa um casaco de pele para uma outra, de meia-idade.

Os primeiros atletas começam a cruzar o asfalto do final da prova, numa via que corta o parque. Há mulheres e há homens na mesma proporção. Gente de mil etnias. Mas parece só haver jovens. Jovens de muitos países, que eram anunciados por uma locutora conforme iam chegando. “Israel!” “Mexico!”, “United States!”. Até que a voz no auto-falante grita “Brazil!”.

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Faz zero grau e sol às 9h em ponto de 18 de março de 2018. A três dias do fim do inverno em Nova York, Ana Luiza dos Anjos Garcez levou uma hora, trinta minutos e cinquenta e quatro segundos para percorrer 21 quilômetros. A exata extensão da ilha de Manhattan.

Animal não ouve os gritos quando cruza a linha de chegada. Até porque, quando vejo seu tempo no relógio que fica em cima do pórtico de chegada, paro de gritar. Ela completou o trajeto com cinco minutos a menos que a melhor corredora da sua categoria, 55 a 60 anos, no ano anterior. A cena de uma mulher negra e analfabeta de 55 anos cruzando a linha de chegada com seu macaquinho com as cores brasileiras e uma touca ninja liberta algo dentro de mim. Passo pelos policiais, na saída do parque, limpando lágrimas com meu cachecol.

Ana fica sabendo na mesma tarde, enquanto passa creme hidratante nos pés inchados no quarto do hotel, que foi vencedora na sua categoria e 150ª no ranking geral. Animal é a mulher de 55 anos mais rápida de Nova York. Quando ela entra no restaurante que escolheu para comemorar, o mesmo quilo italiano de sempre, grita: “Squeeze me, que eu ganhei!”.

CAPÍTULO 7 – “COR: BRANCA”

Quatro dias depois de voltar ao Brasil, Animal fica sabendo que outra corredora, mais ou menos da sua idade, foi para Nova York com tudo pago, convidada por uma marca de tênis. “Mas eu não, né? Eu não sou blogueira. Eu não sei escrever.” Ela conta de novo como fez a primeira série dez anos seguidos “na Febem”.

Falo pra ela que entrei em contato com a Fundação Casa, a instituição que até 2006 era chamada Febem, e que não há registro dela. Pergunto onde ela cresceu de verdade. “Tá, não foi na Febem, Febem. Foi numa creche, com as freiras. Eu digo que foi na Febem porque é mais forte. Mas não era muito diferente, viu?”, ela ri. E depois revela que foi criada num orfanato de freiras, ao lado do aeroporto de Congonhas.

Pesquiso e o lugar, que se chama Creche Baroneza (com zê mesmo) de Limeira, ainda existe. É um casarão em frente ao aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Para a minha surpresa, Animal diz que ia achar “da hora” rever o lugar onde ficou dos poucos meses de idade à maioridade.

A creche ocupa meio quarteirão. É um enorme prédio de dois andares, que coroava uma fazenda com piscina, pomar e hortas. A outra metade do terreno foi alugada na década de 1990, e hoje virou um campo de golfe da Federação Paulista do esporte. Tocamos a campainha, e o portão se abre sem perguntar quem somos.

Uma mulher alta e corpulenta, de cabelos loiros amarelados presos para trás, sai da guarita. Ao bater o olho em Animal, diz: “Eu te conheço! Você foi a que virou atleta!”. As duas se abraçam. Animal senta em seu colo, na cadeira giroflex da portaria, e pede para que eu faça uma foto. Tia Nalva está lá há 40 anos de seus 68. É uma espécie de zeladora.

No colo de Nalva.

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No colo de Nalva.

Animal foi deixada na mesma portaria dentro de uma caixa de sapato. Já tinha mais de um ano, mas ainda era pequena o suficiente para caber na embalagem de uma sandália. Nessa época, havia 400 internas. Hoje, a instituição virou uma escola conveniada com a prefeitura e há cerca de 700 crianças que fazem o jardim de infância ou o pré-primário ali, das 7h às 17h. Irmã Alcântara, a freira superiora, que comandava a creche, morreu há três anos. O viés religioso do lugar já é quase inexistente.

Tia Nalva, que nos anos 1960 morava em uma casa no meio da plantação de hortaliças, onde Animal ia pedir cenouras e almeirão, mostra a edícula que ocupa, nos fundos do pátio da escola, com dois quartos e uma sala. O marido faz parte da quinta geração da sua família que trabalha para os donos do lugar.

Ela liga para a portaria e avisa que uma ex-aluna “muito importante, viu?” veio visitar.

Animal fica de boca aberta ao entrar no terreno. “Não to reconhecendo nada!” Foram 16 anos morando sob o cuidado das freiras. Por mais que seja grata, teve dificuldades. Até hoje não usa Havaianas por dizer que uma cuidadora lhe batia na cara com o chinelo.

As funcionárias do lugar a recebem com abraços. Falam de uma aluna, da geração de Animal, que nunca saiu de lá. Após se formar, começou a trabalhar ali, e continua até hoje. Uma educadora de sorriso constante chamada Cristina diz que seria um prazer mostrar o prédio para uma mulher que já morou ali.

Animal anda pelo corredor do segundo andar onde ficava o quarto que 45 meninas dividiam. Hoje, o segundo andar do prédio é cortado por divisórias, e as crianças de cada sala estão cochilando deitadas em colchonetes no chão, após o almoço.

Ela se lembra de como urinou na cama até os 17 anos de idade. E como, a cada vez que molhava os lençóis, ouvia gritos na frente de todas as outras. Vendo os uniformes de hoje em dia, camisetas brancas e calças de helanca, ela lembra dos vestidos de bolinhas e calcinhas feitas de saco de café que usou. “A gente se vestia igual. Tudo igual. Foi por isso que eu jurei quando saí daqui que ia me vestir diferente, o resto da vida.”

Ser diferente, ali dentro, tinha um preço. Ela lembra que os beliscões deixavam seus braços com roxos que acabavam se juntando e formando grandes manchas. “Pergunta se eu tenho saudades.”

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A funcionária nos conduz à clausura da madre superiora, que recebe Animal com um perfume de limpeza misturado a um cheiro do estofado das poltronas, que estão lá há mais de 60 anos. A assistente tira do armário de jacarandá um álbum com capa de couro. “É um dos mais antigos que temos.” E o coloca sobre a mesa onde ficava a freira que comandava o colégio.

Um retrato da Baronesa de Limeira, que fundou o lugar há 114 anos, observa da parede Animal folheando os álbuns de foto da década de 1960 e de 1970. Animal aponta para o centro de uma foto da turma de 1969. Na terceira fila, há duas meninas idênticas. Pequenas e magras, com os cabelos crespos. Ela para e coloca o dedo sobre a dupla. “Eu acho que sou eu.” Os olhos de Animal começam a verter água, e ela usa as costas da mão como rodo. “Ah, que merda, eu não devia ter passado lápis no olho. Arde. Não tô chorando, não.”

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Foi nessa mesma sala que, quando ela tinha 13 anos, uma freira de nome Cândida a colocou de costas contra a parede. Quando ela se desvirou, havia uma mulher desconhecida no meio da clausura. “Sabe quem é essa?”, perguntou a freira. “Não, ela vai trabalhar aqui?”, Animal respondeu. “Não, ela é sua mãe.” Animal conta que fugiu. Correu pelo corredor e subiu para o andar do quarto, onde se escondeu. O mesmo andar pelo qual ela andou até agora.

A funcionária volta cinco minutos depois com o dossiê de Ana Luiza dos Anjos Garcez. “Caralho, tá tudo aí!”, diz Animal quando vê a pasta, com mais de 70 páginas. Ela pede licença para um crucifixo quase em tamanho real que ocupa uma das paredes da sala: “Ai, perdão”.

O primeiro documento é o registro de entrada dela na creche. Motivo da internação: “Mãe abandonada pelo companheiro, sem parentes que possam ajudar. Necessita trabalhar para se manter”. Os documentos usam termos hoje impensáveis para se referir a seres humanos. Nos papéis, a família de Animal é “ilegalmente constituída, desorganizada, com situação econômica nula”.

Há registro de outros cinco irmãos. Um já havia saído de casa e morava e trabalhava em uma chácara. O segundo havia sumido. Outro estava internado no Instituto Modelo de Menores, outro internado na Casa de Plantão e uma terceira irmã, Maria Lúcia, que havia crescido no mesmo internato, já era maior de idade e morava numa pensão. Maria Lúcia era a única pessoa que visitava as Anas.

Ana Luiza e Ana Maria, as gêmeas, foram internadas juntas. E logo apelidadas lá dentro de Geminha Preta e Geminha Branca. “Foi uma freira que começou a chamar.” Animal era a última, por ter a pele mais clara. Seus documentos, inclusive, marcam: “Raça: branca”. “Acho que eles achavam que ser preta era uma coisa ruim, e não queriam que eu fosse preta”, diz ela. “Queriam me proteger.” Nas fotos em preto e branco das décadas de meninas que passaram pelo lugar, há poucas brancas.

Há um registro de férias entre os papéis. Dos 16 anos que passou ali, Animal saiu uma só vez, levada pela irmã mais velha. Passava as outras férias sozinha, já que a maioria das meninas tinha algum parente que pudesse cuidar delas, pelo menos dois meses do ano. Sozinha, não, com a irmã Ana Maria, de quem nunca mais ouviu falar.

O boletim escolar mostra que ela de fato refez a primeira série por dez anos seguidos, dos seis aos 16. “Diziam que eu era burra.” Não só diziam isso, como também registravam em documentos. Eis o laudo de um teste feito em novembro de 1975, quando ela tinha 13 anos, no Serviço de Saúde Escolar da Secretaria de Estado dos Negócios da Educação. “Trata-se de criança pouco desenvolvida fisicamente para a idade”, abre o laudo. “Apresenta, segundo teste de nível, deficiência mental descrita (QI = 55 e idade mental de 7 anos e 2 meses).” O laudo termina: “A examinada é educável. Necessita de ensino especializado”. Animal nunca recebeu ensino especializado.

Reprodução

Seu registro de desinternação mostra que ela saiu em primeiro de março de 1978, com 16 anos, sob os cuidados da mãe. Animal sempre havia dito que saiu do lugar ao completar 18 anos, e foi de lá direto para uma casa, onde trabalhou como empregada doméstica. Olho para ela surpreso. Ela faz sinal de silêncio com o dedo sobre a boca.

A funcionária pergunta como é sua relação com a irmã e com a mãe. “Eu não sei onde elas estão”, diz Animal. “Nem quero.” A mulher responde, com a voz calma: “Você tem o direito de não querer correr atrás deles. Mas precisa achar espaço no seu coração para perdoá-los.” Animal mexe a cabeça de um lado para o outro, bem ráṕido: “Eu não sou obrigada”.

Quando já saímos do prédio e estamos no meio do caminho até a portaria, Animal conta a verdade sobre a sua saída. “Eu fiquei três dias com ela e fugi. Deixei minha irmã com ela. Eu não queria aquela mulher. Você não vai atrás daquela mulher.” Prometo que não vou atrás daquela mulher, ainda que um documento mostre que a mãe de Animal esteve no internato em 1991, buscando informações da filha, que nessa época já estava na rua.

Na guarita da escola, Tia Nalva conta que outras ex-alunas, uma desembargadora e uma juíza aposentadas, estiveram ali recentemente. Passa o seu número de WhatsApp para Animal, que apresenta para outras funcionárias. “Ela virou atleta.” Uma merendeira que veste uma camiseta do gato Garfield comendo uma lasanha bate com a mão espalmada na testa e diz: “Então é daí que eu lembrava dela! Eu te vi na TV”.

Animal sorri enquanto entra no carro, mas logo que a porta se fecha, sua maquiagem preta volta a escorrer, descendo dos olhos pelas bochechas. Olho para ela. Ela esconde o rosto com as duas mãos, e fala abafado: “Que merda esse lápis de olho”.

CAPÍTULO 8 – UM TESOURO ESCONDIDO

O destino discutido no Palácio

Na reunião de 6 de fevereiro, do Conselho Diretor do Programa Estadual de Desestatização, os conselheiros “recomendaram ao Setorial que o escopo do projeto [de privatização do ginásio] zelasse pela manutenção da vocação do empreendimento para o esporte”. A ata oficial registra que “o Grupo de Trabalho avançou na consolidação da Modelagem” e também “salientou que já se iniciaram as tratativas junto à Prefeitura Municipal de São Paulo (PMSP)”. Ou seja, o projeto andou e a prefeitura paulistana está trabalhando em conjunto com o governo do Estado.

É o que descubro vasculhando documentos oficiais para tentar prever o futuro de Animal. Encontro também outros passos do processo de privatização do prédio onde ela mora há 17 anos.

Em 18 de agosto de 2017 foi publicada no Diário Oficial a lista com as nove empresas que atenderam os pré-requisitos da concessão para reformar e administrar o Ginásio do Ibirapuera por 30 anos. Cada uma delas tinha até 17 de outubro para apresentar seus planos e seus preços para a reforma de três anos. A partir dessas informações, o grupo vai escolher a empresa que vai reformar o ginásio. A licitação foi atrasada duas vezes desde então, e não tem data certa para sair.

O secretário Paulo Gustavo Maiurino não encontra tempo em sua agenda para conversar pessoalmente comigo, mas responde às minhas perguntas com uma nota por e-mail, que começa assim:

“A Secretaria de Esporte, Lazer e Juventude do Estado de São Paulo (SELJ) informa que o edital de concessão do Complexo Desportivo Constâncio Vaz Guimarães deve ser publicado no primeiro semestre de 2018. A expectativa é que ocorram investimentos de aproximadamente R$ 600 milhões da iniciativa privada no complexo, bem como um pagamento mensal ao Governo do Estado.”

Ou seja, Animal vai saber nos próximos dois meses se será despejada. A nota continua:

“O local será modernizado e adaptado para receber eventos esportivos, culturais, corporativos e dos mais variados segmentos. O Governo do Estado de São Paulo está elaborando o modelo de concorrência de acordo com os estudos apresentados [pelas empresas].”

Reprodução

Pergunto sobre o que será feito das pessoas que moram ali enquanto as estruturas estiverem em reforma, ou no caso de serem demolidas. O secretário responde: “Qualquer ilação sobre demolições ou intervenções no local até a publicação do edital é mera especulação”.

O chamamento público para empresas interessadas em reformar e administrar o lugar, entretanto, afirma que a pista será demolida (“para a implantação de uma arena coberta com capacidade para 20.000 pessoas”, diz o documento), e que o estádio em que Animal mora, mostrado em um desenho em que seu quarto não aparece, vai ser “renovado e atualizado tecnologicamente”. Converso com cinco pessoas envolvidas no projeto. Nenhuma delas sabia da existência de Animal dentro do ecossistema do Conjunto Esportivo.

Converso com um dos advogados que mais entende de direito a moradia em São Paulo. Ele, que pede para não ser nomeado porque ainda não há caso e precisaria conhecer os pormenores, afirma que, por mais que a Constituição vete que Animal peça o quarto para si porque mora lá há 17 anos, ela tem direito a pedir na Justiça a realocação para uma moradia similar, em um bairro ali perto, custeada pelo governo.

O advogado explica que isso se chama comodato verbal. O Estado permitiu, sem contrato escrito, que ela morasse em um imóvel por quase 20 anos, ilesa pela troca de gestões. Ela foi convidada por um governante para morar lá, diz o advogado, e por isso passou a ser atribuição do Estado zelar pelo direito de moradia dela. Ele afirma que já defendeu um caso parecido, de um zelador que morou anos em um quarto num estádio, e que conseguiu na Justiça um apartamento até o fim da vida.

Mala de dinheiro

Enquanto o mundo burocrático anda a passos miúdos, a vida de Animal corre. Ela se planeja para fazer a meia-maratona WRun, dedicada às mulheres, e a 7ª Rolling Stone Music & Run, que mistura suas paixões: rock e corrida. Tenta conseguir uma bolsa para os Gay Games, mas perde o prazo. Raspa o cabelo. Eles crescem. Ela vai a um ato na Paulista a favor da prisão do ex-presidente Lula. Ela os descolore. Ela vai a um ato na Paulista contrário à prisão do ex-presidente Lula. Ela raspa os cabelos de novo.

Na primeira semana de maio, Animal desaparece. Fernanda e Wanderlei dizem não saber onde ela está. É por uma notícia do site G1 que descubro seu paradeiro. Animal se mudou para o acampamento das pessoas que moravam no edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paissandu, que pegou fogo e ruiu na madrugada de 1º de maio.

Chico Felitti / BuzzFeed News

Ela dorme em uma barraca. “Eu que comando as doações aqui”, diz com o pouco de voz que lhe resta, enquanto está na frente de uma pilha de sacolas com roupas que é mais alta do que ela. Animal afirma que só vai sair dali quando os sem-teto receberem uma nova moradia. “Eles são que nem eu. A gente tá junto.”

Antes da tragédia de maio, continuamos nos vendo quase que diariamente, para andar pela cidade. Ela corrige minha postura e amarra meus tênis à revelia da minha vontade. Eu vou assisti-la correr nos treinos que não começam às quatro da manhã. Ela vai me ver nadar, mas não consegue ficar perto da piscina porque o cheiro de cloro a irrita. Adoto uma vira-lata chamada Cãnela. Animal diz que as duas se dão bem porque saíram da rua. “E nenhuma das duas quer voltar!”, ela ri. Em um domingo na Avenida Paulista, ela diz que quer ensinar o cão a correr.

É uma noite de domingo e ela e Dulce estão no quarto quando eu chego com uma mochila que ela havia visto na minha casa. “Se você não vai usar, dá pra mim?”, pediu por WhatsApp.

Entrego a mochila, de plástico transparente, e pergunto: “O que você vai fazer com mais uma mala, Animal?”. Todos olham para o paredão de bagagem que cobre o vão da arquibancada, no canto do quarto. “Ela é linda”, ela responde. E se levanta para mostrar suas prediletas.

No canto do quarto, há uma mala meio Transformers, com o logotipo da cerveja Heineken, que vira um patinete — é só baixar um skate retrátil que fica preso às costas da mala, se apoiar na alça de puxar e sair rodando. Ela solta gritinhos enquanto dá voltas pelo corredor do estádio.

“Animal, vamos abrir essas malas?” Não era a primeira vez que eu pedia. Nem a segunda. Nem a décima quinta, e até então ela não tinha me dado essa liberdade. “Tá, vamo abrir.”

Vou em direção a uma das quatro malas azuis idênticas da seleção brasileira de atletismo. Quando a levanto, ela se joga na direção da mala, acudindo com as duas mãos, como se eu estivesse lidando com cristais, e não com uma mala cheia de roupas: “Cuidado, cuidado, cuidado! Vai quebrar”

Chico Felitti / BuzzFeed News

Animal ajuda a abrir o zíper. O interior da mala é denso, com todos os espaços preenchidos. Eis o conteúdo de metade de uma mala:

– Quatro conjuntos de corrida azuis da Nike, com a bandeira brasileira. Nunca usados.

– Um par de sapatilhas de cravo brancas e rosa da Nike. Nunca usado.

– Uma bermuda azul de basquete infantil tamanho GG da marca Jordan Clothing. Nunca usada.

– Uma camisa polo de tecido dry fit da marca Under Armour. Nunca usada.

– Dois sinos de metal usados por corredores em algumas provas na Europa. Nunca usados.

– Uma camiseta de dry fit da Olympikus, tamanho XXXXL, com a estampa: “Você é do tamanho do nosso sonho. Boa sorte”. Nunca usada.

Pego outra mala azul com a bandeira do Brasil, que parece mais vazia. Abro e dentro de um compartimento encontro três fones Beats by Dr Dre. Cada um custa, por baixo, R$ 1.000. Um DVD player portátil, no plástico. Um iHome, doca que toca música de aparelhos da Apple e também serve como rádio-relógio — na embalagem.

Fernanda, a amiga fotógrafa, me contaria depois que um membro da seleção brasileira de atletismo vendeu para Animal um fone de ouvido da Bose, com as cores da bandeira, por R$1.500. Ele havia ganho o fone de brinde. Fernanda foi tirar satisfação com os chefes da associação. Eles disseram que dariam uma advertência para o atleta, mas que o negócio não poderia ser desfeito. “Teve gente que abusou da boa vontade dela”, diz a fotógrafa. O fone está na mala.

Lembrando que são 30 malas fechadas, então essa lista pode ser multiplicada por 60 para, com alguma aproximação, se ter uma idéia do patrimônio que Animal acumulou nos últimos anos de viagens.

Ela pergunta: “Agora quer ver as mochilas?”. E aponta para uma caixa de papelão do tamanho de um caixão, no canto do quarto. Embaixo de um tapete de ioga, nunca usado, há camadas e camadas de mochilas. Mochilas de marcas como Wilson, Nike, Reebok, Under Armour. Um mil folhas de mochilas, que acaba de ganhar mais uma camada com a minha contribuição.

“Animal, você só usa a mesma mochila todo dia. Por que tem tanta coisa?”, eu pergunto.“Eu vou usar!” Pergunto cinco vezes se ela não se incomoda de eu tornar seu tesouro público. “Eu não! Se for pra me roubar, que roubem.”

Dulce abre a boca, que só vai tornar a fechar dali a alguns minutos, mas fica um bom tempo sem emitir som. “Eu nunca tinha perguntado o que tinha aí dentro, tento ser discreta, respeitar ela.” A amiga comenta que viu na TV um seriado sobre acumuladores, pessoas que juntam mais coisas do que precisam. Bem mais.

“Você acha que eu sou uma dessas?”, pergunta Animal. “Eu acho que você gosta muito das suas coisas”, diz Dulce. A dona das malas retruca: “É que eu não tinha essas coisas na rua”.

“Eu nunca achei que fosse conseguir”

Estou voltando de uma viagem de trabalho, no começo de abril, quando vejo que há no meu celular 32 mensagens e oito ligações não atendidas. Todas do mesmo número. Paro em um posto na beira da estrada e retorno para Animal, que não deixa tocar meia vez antes de atender. “Você viu, caralho? Eu vi ela! Ela falou que eu sou linda! Ela é demais!”. Peço calma, digo que ainda não tinha visto as mensagens.

Encerro a ligação e abro o WhatsApp. São fotos e vídeos que mostram como Animal realizou seu sonho mais recente. Em um evento de uma marca de corrida, na avenida Paulista, conheceu Karol Conká.

Um vídeo mostra a cena: a cantora vem até o gradil que divide o público do palco. Animal grita: “Eu te amo e tô emocionada só de te ver”. Karol Conká ri, e responde: “Você sou eu amanhã!”.

Um outro vídeo mostra a cantora no palco. Ela olha para a câmera do celular que Animal apontava em sua direção e, antes de começar a cantar “Maracutaia”, pisca para a câmera e diz “Linda!”.

As economias de Animal estão com os dias contados. Todas suas fontes de renda secaram. Ela está ganhando cada vez mais provas, mas não há nenhum patrocínio em vista. O estádio onde ela mora passará por uma modernização que parece não incluí-la. Ela não sabe se vai conseguir ir aos Gay Games em Paris, em agosto.

Mas tudo isso é menor numa segunda-feira de 2018. Hoje, Animal acordou às cinco da manhã, treinou, comeu e reviu uma centena de vezes o vídeo da realização de um sonho. “Eu nunca achei que fosse conseguir, cara!”

Hoje, Animal está feliz.

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