ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE? NÃO É BEM ASSIM. por Mário Rubial

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A grande maioria das pessoas já esteve numa cerimônia de casamento.

Quando chega o momento dos noivos colocarem as alianças, dizem um para o outro:

– Eu lhe prometo ser fiel, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza.

Mas nem sempre é assim.

Casais separam mesmo após um curto período de tempo. E não adianta lembrar do que foi dito no ato das alianças.

Tudo isso para dizer que, se nem no casamento, diante de Deus, a fidelidade não é respeitada, por que deveria ser com relação a um time de futebol?

Sim, é isso mesmo, caro leitor. Por que posso me separar da minha mulher, casar com outra e não posso fazer o mesmo com um time?

Toda essa introdução para dizer que já fui palmeirense na infância, corinthiano na fase adulta e atualmente juventino. Da Mooca, meu!

Agora já posso contar a história.

Na minha infância, fui criado pela minha tia e madrinha Irene, que era irmã de minha mãe. Morava conosco e ajudava em casa para que meus pais pudessem trabalhar.

Tia Irene era corinthiana fanática e, claro, fazia minha cabeça.

Até que um dia aconteceu o seguinte:

Anos 40, meu pai tinha a concessão do Ginásio do Pacaembu, onde eram realizados bailes de todos os gêneros, musicais, lutas de boxe, jogos de basquete e mais uma infinidade de eventos.

Passei minha infância no Pacaembu na companhia do Oswaldo, filho do administrador. Era meu grande quintal já que, todas as vezes que meu pai ia ao estádio, eu o acompanhava.

Certo dia, meu pai encontra por lá um grupo de amigos. Conversa vai, um deles pergunta:

– E aí seu Mário, o Marinho torce para que time?

– Acho que está torcendo para o Corinthians, não tenho certeza.

Rebate o amigo:

– Vamos mudar esse negócio. Você compra pro teu filho o uniforme do Palmeiras. No próximo domingo, ele vai entrar de mascote palmeirense. E o jogo será contra o Corinthians.

E aconteceu como combinado. Entrei em campo uniformizado, com direito a uma touca ao lado de Oberdã Cattani, Juvenal e outros craques da época. Corria o ano de 1949!

O resultado é que me obrigaram a ser palmeirense. E, naquele tempo, muito mais do que hoje, “virar casaca” era crime de lesa-pátria. E como eu, um fedelho de cinco anos ousaria dizer que não era palmeirense? Foi um parto, já que minha tia Irene ficou fula da vida com meu pai.

Vida que segue e em 1968 trabalhava na Editora Abril. Um dos meus melhores amigos era o José Luiz. Corinthiano fanático que não perdia um jogo do Timão.

Certa vez, num dos botecos da vida, contei a história do Palmeiras.

Zé Luiz não se conformou e ordenou:

– Pô Marinho. Você é um legítimo corinthiano! E, a partir de hoje, declaro solenemente seu retorno à grande nação corinthiana. E amanhã você vai comigo ao jogo no Pacaembu!

No dia seguinte, o Zé Luiz aparece com duas bandeiras.

– Esta é tua! Ordena.

E me transformei num fanático corinthiano a ponto de transformar um sobrinho são-paulino num outro corinthiano. Até hoje.

Vida seguindo e um certo dia, trabalhando com licenciamento de personagens infantis, estou diante de Roberto Garcia, um dos herdeiros da Kalunga e na época envolvido com a família na diretoria do Corinthians.

No meio da reunião, ele atende o telefone. Vira pra mim e diz:

– Me acompanha na inauguração de uma choperia? É de um conselheiro corinthiano.

Como eu queria ter uma aproximação comercial maior, topei.

Embarquei  no carro do Roberto.

Lá chegando, uma grande mesa no centro do salão. Um monte de diretores, conselheiros e tome fofoca, discussões, acusações, troca de farpas. E eu ouvindo tudo.

Ouvi tanta porcaria, tanto malfeito,  que num determinado momento pensei: “Caramba, vou ao estádio, fico rouco de tanto torcer, brigo, xingo juiz e adversários e, no final, sou obrigado a ouvir toda essa sujeira?”

Saí de lá arrasado. E decidi deixar de ser corinthiano. Não queria fazer o papel de idiota.

Anos depois, sou convidado junto com um grupo de amigos para elaborar um plano de marketing para o Juventus. Que já comentei duas crônicas atrás.

Gostei tanto de respirar os ares juventinos naquela Mooca tão encantadora, que resolvi virar torcedor do Moleque Travesso.

Entenderam agora o título acima?

FRASE DE BOTECO

O meu clube estava à beira do precipício. Mas tomou a decisão correta: deu um passo à frente.

JOÃO PINTO, jogador do Benfica de Portugal.

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