REFLEXÕES SOBRE A CORRUPÇÃO NO BRASIL: DA GÊNESE AO RESGATE DO SENTIMENTO REPUBLICANO por Pedro Henrique R. Sales

0
283

As origens da corrupção no Brasil são seculares e inegavelmente remontam ao patrimonialismo, decorrente da colonização ibérica, marcada pela frágil separação entre a esfera pública e a esfera privada. Nunca houve entre nós a distinção clara entre a Fazenda do rei e a Fazenda do reino — o rei sempre foi sócio dos colonizadores —, e as obrigações privadas e os deveres públicos sempre se colocaram em sobreposição.

A confusão existente entre o público e o privado acentua-se particularmente em face da onipresença do Estado no Brasil, que exerce o controle da política e das atividades econômicas, pela exploração direta ou por mecanismos de financiamento a empresas privadas. Nosso modelo de desenvolvimento faz com que a sociedade seja dependente do Estado para quase tudo o que é importante, sejam projetos pessoais, sociais ou empresariais.

A panaceia estatal fomenta entre nós uma cultura indesejada de paternalismo e compadrio, que não raras as vezes se sobrepõe ao mérito e a virtude. E agrava essa situação, indiscutivelmente, nossa cultura da desigualdade. As origens imperialistas do país desde sempre dividiram o conjunto social entre aqueles que estão sujeitos à lei e os que se consideram acima dela.

O Brasil contemporâneo, lamentavelmente, é pródigo em perpetuar nossos pecados originais. Nosso sistema político dá marcha a uma série de males que o país precisa superar. Não é por outro motivo que as reformas políticas nunca deixam de ser ventiladas na ordem do dia. Nossas eleições permanecem caras e são disputadas diante de um cenário de excessiva e inexplicável fragmentação partidária, trazendo consigo a gênese das crises de governabilidade experimentadas pelos governantes de todas as esferas federativas.

Cumpre reconhecer, igualmente, que para além das falhas do sistema político, convivemos com estranha naturalidade com as falhas de caráter. Sem o pudor nem a dignidade que fingem defender e vivenciar, alguns utilizam-se de expedientes sórdidos para acumular fortunas incalculáveis. Indiciados, após acusações vergonhosas, não dispõem da mínima compostura, lutando para provar inocência cínica e mentirosa. Tendo anestesiada a consciência que adaptaram às circunstâncias da corrupção, deixam transparecer que a sua conduta é a correta.

Buscando confundir a percepção pública sobre o mal que praticam, trabalham com a ideia de que se tudo está errado, então nada está errado. Desamparados da retidão, tentam confundir a morosidade da justiça com a própria legitimidade de seus atos, apostando na impunidade transitória como pia batismal de descalabros morais.

Felizmente, o avanço da interação comunicativa pelos meios digitais desmascara-os e embora nem sempre se vejam punidos conforme são merecedores, tendem a viver asfixiados no desalento em que se atiraram. Se acham inteligentes pela habilidade de burlar as leis, porém, são apenas astutos de breve jornada. À medida em que vivenciamos o avanço civilizatório, os “espertos” receberão da população que não aceita mais a malversação do fruto de seu esforço as chagas da desonra.

A corrupção favorece os piores. Celebra a prevalência dos desonestos sobre os íntegros. Mas para a sorte do nosso povo, esse modelo não se sustenta indefinidamente. Ele está fadado a se esvair. É bíblico: o mal não pode ser maior que o bem. Se assim fosse, a própria vida não teria sentido.

Vejo com muito otimismo e orgulho o povo goiano manifestar sua ativa participação na vida política e com efusivo entusiasmo mostrar que decidiu conviver com os acertos e com os erros de quem deseja sempre acertar em favor de todos. Um povo que tem orgulho de ser reconhecido por ser lutador e que tem revelado ao Brasil seu anseio constante pela revalorização dos bons em lugar dos espertos. Gente lutadora e próspera, que valoriza as iniciativas de combate ao mal da corrupção e mostra ao país uma imensa demanda por integridade, idealismo e patriotismo.

Pedro Henrique R. Sales, Mestre em Direito Constitucional, presidente da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Goiás e servidor de carreira do STF.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor digite seu nome aqui

16 − cinco =