BAR LÉO: DE PAI PARA FILHO por Mário Rubial

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Em crônica de alguns anos atrás, contei como conheci o Heitor Paixão, amizade que perdura até hoje. E, para quem não lembra ou não leu, ela começou pelas mãos do Noro, no Bar Léo, Rua Aurora 100, boteco de responsa ainda em pleno funcionamento.

Fomos assíduos no Léo, no tempo em que era possível transitar nesta caótica cidade de Sampa.

Éramos atendidos pelo Luizinho, garçom de primeira hora, que por lá trabalhou até morrer: com 95 anos, tendo trabalhado 55 no Léo.

Luizinho tinha uma relação paternal com o Heitor. Ele determinava quando era hora de parar e não tinha mimimi.

Era engraçado.

O Heitor bradava:

– Luiz, um chopp e um schnaps.

– Pronto, Paixão.

De novo:

– Luiz, um chopp e um schnaps.

– Pronto, Paixão.

Na oitava ou nona vez o Luiz chegava com a conta, entregava ao Heitor e dizia, com autoridade:

– Chega Heitor, pague a conta e vá para casa.

E o Heitor obedecia!

Uma vez perguntei ao Heitor o porquê do extremo respeito ao Luizinho.

O Heitor me contou a seguinte história, muito bonita.

– Meu pai era frequentador do Bar Léo desde a inauguração na década de 40. E eu, ainda garoto, o acompanhava eventualmente. Portanto, conheço o Luiz desde criança. E essa relação com meu pai até que lhe deu uma responsabilidade para cuidar de mim. É isso.

Achei interessante até porque conheço várias histórias semelhantes.

Vida seguindo, eu e Heitor constantemente “fiscalizando” o Léo.

Uma vez perguntei o que o pai do Heitor fazia. Afinal, se frequentava o Léo, devia trabalhar no centro de Sampa.

Heitor me disse que “seu” Urbano era delegado da velha guarda, etc., etc.

Me ocorreu de comentar que meu pai era dono de taxis-dancings na década de 40 e também frequentava o Léo, segundo relatou minha mãe.

Heitor tinha um tio, irmão do Urbano, que frequentava a noite.

Certo dia Heitor comentou com ele nossa amizade, que eu era filho do Mário, dono do Maravilhoso, Chuá e esse tio Norberto disparou:

– O Mário? Era um amigão nosso. Como era português, a regularização da Identidade fui eu quem fiz.

E por extensão, outra tia do Heitor falou:

– O tio Mário? Era uma doce pessoa. Eu era pequena, ele me pegava no colo e brincava comigo.

Mundo pequeno, não?

FRASE DE BOTECO

Considerações sobre religião, psicanálise e bar:

RELIGIÃO – Nela, ouve-se conversa fiada e paga-se, na forma de óbolo ou de dízimo.

PSICANÁLISE – Vende conversa fiada em sessões de uma hora (que na verdade tem 45 minutos), e paga-se – em geral, muito – por algo que dificilmente resolve problemas do paciente.

BAR – ouve-se todo tipo de conversa. Muitas vezes aprende-se com isso. Se, por um lado, o papo é furado, pode-se mudar de lugar ou ir embora. No bar só se paga o que se consome, em forma de petiscos e de bebidas. É ou não mais justo que as outras duas opções?

O bar é a verdadeira rede social – não a democratização da imbecilidade que a internet disseminou.

WILSON PALHARES

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