A falta que faz Fernando Luiz Vieira de Mello

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Por José Roberto Faria Lima

Hoje, fui arrebatado para um encontro com um saudoso amigo que completou sua missão no primeiro dia desse novo século.
Antes, porém tive que refletir sobre o rótulo em moda : amigo.
Sutis diferenças merecem atenção.
Uma coisa é ser companheiros, colega, conhecido e “amigo”.
A natureza humana possibilidade termos amigos ou a caminhada é solitária.?
Ao sair do transe persisti com muitas dúvidas …
Convido vcs a me acompanhar nesta aventura pelas lembranças.
Nada mais são do que uma forma de amor.
É aquele amor que fica, não descola da gente.
Nos envolve provocando saudade temperada com um molho filosófico, sem qualquer compromisso.
Enfim um micro lampejo nesse primeiro dia de calor do inverno tropical de Pindorama
Vamos lá ..
Relaxe, aperte o cinto e uma boa viagem.
A caminhada pelas veredas da vida é árdua.
Uma batalha solitária.
Quantas vezes você não clama por uma companhia, alguém com quem seja possível encontrar um incentivo para continuar.
Evitar que o desespero tome conta de sua existência terrestre.
Evitar que desista da luta, abandone tudo, perca não só o já conquistado como até o sonho perseguido.
Que seria da vida sem um sonho ?
“Sonho, logo existo”.
Esse é o mantra ….
Quantas vezes vc já passou por esta situação ?
Uma, duas ?
Quantas?
Um lamento desesperado clama por um amigo.
Um companheiro de viagem.
Alguém para oferecer sabedoria, experiência e testemunhos.
E quando surge alguém, como saber se realmente é um amigo ou apenas um intruso qualquer para complicar e ampliar seu tormento.
Quantos amigos já cruzaram sua vida ?
Como definir um amigo ?
Dizem e repetem que amigos são indispensáveis .
Um valioso tesouro a ser preservado a sete chaves.
A mais preciosa das conquistas !
Quantas vezes vc já se sentiu solitário no meio da multidão ?
Até sua sombra lhe abandona nas noites escuros.
No fundo só você mesmo o acompanha durante todo o tempo.
Apenas você !
Sua missão é individual e única.
Ao chegar ao planetinha azul, quando abandona o ventre de sua mãe, apenas trazeis a consciência, que protege os dons e virtudes ainda não germinados e a razão ainda em fase embrionária .
Ia me esquecendo, pois passa despercebido, ao nascer quem lhe acompanha é a morte.
Vida e morte companheiras inseparáveis .
Ocorre um descompasso no desenvolvimento da consciência . Entre a intuição e a razão.
A razão, ou seja o bom senso se desenvolve lenta e progressivamente enquanto a intuição, inclusive o instinto de sobrevivência é ágil, proativa sempre desperto e atuante.
Sincronizar esses sistemas demanda algum tempo.
Desejos e vontades ainda não são filtrados pelos crivos da razão, do bom senso.
Impera o instinto que antecede a intuição.
Na maturidade ocorrerá o sincronismo, somente neste momento.
Tudo parece seguir um ritual pré determinado .
Uma gama limitada de eventos produz uma aparente e inesgotável variedade de enredos.
Eis mais um mistério a nos desafiar.
Isso ocorre pois nosso ciclo de vida ser tão pequeno é limitado.
Lembra ? A vida é um sopro.
Nessa primeira etapa da existência talvez seja quando mais precisemos de amigos.
É a fase tumultuada inicial.
Ainda não temos entretanto a capacidade de discernir o que seja esse “amigo”.
Compare com as sete notas musicais que geram uma infinita possibilidade de melodias .
As vinte e seis letras que aparentemente produzem um ilimitada coleção de escritos.
Amigo é o irmão que escolhemos para ter.
Imagine a felicidade quando a escolha acontece simultaneamente.
Vc escolhe alguém e esse alguém também lhe escolhe como amigo.
Conheci milhares de pessoas mas verdadeiros amigos conto nos dedos das mãos .
Fernando Vieira de Melo era um deles.
Aonde quer que esteja hoje continua sendo meu amigo.
Fernando era um gênio da raça .
Influenciou uma geração de jornalistas e comunicadores.
Transformou a Jovem Pan na mais importante fonte de informação de toda Pindorama.
O Jornal da Manhã acordava o Brasil com a voz de São Paulo e dava o tom dos debates políticos no país
A seu convite, durante anos, participei juntamente com o Nei Gonçalves Dias e o inesquecível Barão , pai do nosso Emerson Fitipaldi dessa “bancada” de comunicadores.
Vozes como a o Delfiol e Franco Neto, a melhor do país, levavam as últimas notícias aos brasileiros de São Paulo e onde as ondas da JovemPan atingisse .
O famoso bordão “repita” intercalava a informação da hora exata .
Era o Big-Ben da Paulista no último andar do prédio Winston Churchill .
Comentávamos os principais acontecimentos diários.
A liberdade de crítica era total, assegurada pelo “maquininha”.
Lembro certa vez, quando o Paulo Maluf era Governador alonguei-me apresentando sob forma de narrativa a seguinte fábula.
Maluf ganhará um corte de tecido fabuloso durante a viagem que fizera ao Oriente Médio .
Estava em cadeira de rodas pois machucara com um corte os glúteos.
Voltando a São Paulo foi a seu alfaiate para fazer um terno com o tecido com que fora presenteado.
O alfaiate elogiou o tecido mas disse que não conseguiria fazer o costume pois as medidas do tecido eram insuficientes.
O Governador ficou desapontado mas nunca desistiria de fazer o terno.
Levava consigo o belo tecido e procurava o melhor alfaiate da região para confeccionar o almejado terno.
Todos ficavam impressionados com qualidade do tecido mas argumentavam que era infelizmente insuficiente para fazer a roupa desejada.
Numa viagem a Brasília lhe indicaram o melhor alfaiate da Capital e lá estava o Maluf com seu corte de tecido.
Desta vez entretanto além dos elogios ao tecido o artesão marcou prazo para entregar o terno.
Entusiasmado aguardou o prazo e ao retornar recebeu um magnífico costume, tinha sobrado tecido e o alfaiate fizera uma confortável capa além de uma segunda calça com Barra italiana.
Maluf surpreso indagou como tinha sido possível ter ocorrido aquilo já que todo anteriormente argumentavam ser as medidas do tecido insuficientes.
A que o alfaiate candango lhe respondeu … é que aqui o senhor é desse tamanhozinho.
Nossa !
O telefone da sala do Fernando não parava de tocar eram os admiradores do governador reclamando.
Telefonemas do Palácio ,enfim uma enxurrada de chamadas.
Do Fernando recebi apenas a reclamação que o tinha feito trabalhar em dobro naquele dia.
Era um líder, um timoneiro de primeira.
Comandava a diretoria de assuntos institucionais do Mappin e criava campanhas publicitárias incríveis para a melhor loja de departamento de São Paulo.
Tínhamos discussões filosóficas de alto nível.
Convenceu-me a felicidade plena não existia em nossa vida terrestre, desfrutamos apenas de momentos de felicidade.
Curvei-me a seus argumentos.
Fiquem muito triste quando soube qua essa maldita doença de Alzheimer tinha nos levado o Fernando da gente.
A última vez que nos encontramos foi da Rádio Trianon.
Senti que por alguns momentos ele escapou das garras dessa infame maldição.
Ele me reconheceu e nos abraçamos.
Deixou todos que presenciaram a cena estupefatos.
Foi um até breve.
Nos encontraremos numa esquina da eternidade.
Vive na memória daqueles que com ele conviveram.
A cidade lhe homenageou mas sem a grandeza que merecia.
Virou um túnel .
Muito pouco para recompensar o amor que dedicava a essa nossa cidade.
A gratidão é o tipo de sentimento que não devia estar sujeito a rendimentos decrescentes.
Aprendi muito com Fernando.
Era um homem sólido.
Fiel a seus princípios.
Dedicado a seu trabalho.
Apaixonado por São Paulo.
Leal e repleto de talento.
Criativo e destemido.
Faz muita falta.
Destacava a importância de enfrentar os mais fortes sem medo e ser caridoso, ter empatia para com aqueles que ainda são frágeis.
E além de tudo, era meu amigo.

Faria Lima
Lampejos

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