DE TERNO E GRAVATA por Fausto Camunha

DE TERNO E GRAVATA por Fausto Camunha

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Uma experiência muito diferente começou quando saí da TV Cultura, isso em 1974. Fui contratado pela COMGAS – Companhia de Gás de São Paulo, na época ainda estatal, por indicação do Lázaro Elias Severino, então secretário de imprensa do prefeito Olavo Setúbal. Entrei como assessor de imprensa e depois passei ao assessor da presidência, comandando as áreas de imprensa e relações públicas. Aí aconteceu um fato curioso. Quando me ví numa bela sala, com ar condicionado, secretária à disposição, cafezinho toda hora servido pelo garçom, etc, e novas funções, entrei em pânico. O ambiente era completamente diferente de uma redação. Tudo era diferente. Aos poucos fui perdendo a voz. Um médico amigo da minha família, o doutor Plácido Stamm Gomes, se deu ao trabalho de ir até lá para me ver e saber o que acontecia.

– Fausto, a mudança de ambiente foi radical. E agora você está do outro lado do balcão. Ou você aguenta firme, porque é só uma questão de se habituar, ou você sai e volta de novo para fazer o que você gosta.

Decidi enfrentar e fiquei por lá mesmo. Afinal já era casado, tinha filho e a responsabilidade falou mais alto.

Certo dia, por volta das 23 horas – eu já estava me preparando para dormir – toca a campainha em casa. Era o engenheiro Leopoldo Macedo Neto, então superintendente da COMGAS, todo agitado.

– Fausto, ande rápido. Explodiu um viaduto sobre a 23 de Maio. Temos que ir prá lá!

Me vesti rapidinho. O Leopoldo estava em um carro de emergência – um Fusquinha azul – cheio de luzes espalhafatosas na capota. Chegando lá vimos um quadro desolador. Tinha realmente havido uma explosão – e não foi pequena. De cara tivemos que falar com o delegado Sergio Paranhos Fleury.

– Documentos, aqui sem documento ninguém entra.

– Mas doutor – disse o Leopoldo – tenho que entrar rápido para saber o que aconteceu ou se ainda vai acontecer…

– Primeiro vamos checar os documentos de vocês.

– Tivemos que aguardar uns 10 minutos, tempo que poderia ser muito perigoso.  E se houvesse nova explosão?

Quando conseguimos, de fato, pisar sobe o viaduto, vimos à extensão do estrago. Parecia ter havido uma guerra e todos os destroços estavam alí, à mostra.

Aos poucos, foram chegando outros engenheiros e técnicos da Companhia para ajudarem a descobrir o que tinha acontecido, coisa que só foi revelada dias depois. Havia sido feito um reparo pela então Telesp, na rua Abilio Soares. Por acidente, uma das tubulações da COMGÁS foi perfurada e o gás começou a vazar lentamente na direção do viaduto, onde havia uma caixa de respiração. O gás foi se acomodando alí, até acontecer a explosão, indo tudo pelos ares. A imprensa começou a pressionar o Leopoldo que, até então, não tinha certeza do que havia acontecido. Para piorar as coisas, chega o então secretário de Segurança Pública de São Paulo, Erasmo Dias. Ele era jogo duro.

– Isto aqui é ato terrorista, declarou ele à imprensa.

– Quem é o responsável, perguntou, já se dirigindo ao Leopoldo porque percebeu que ele estava comandando as investigações.

– Calma, secretário, não sabemos nada ainda. Pode ter sido apenas um vazamento de gás…

– Mas pode ter sido um ato terrorista!

– Pode. Mas pelo que eu vi até agora, duvido muito.

O engenheiro Leopoldo passou a noite inteira sobre o viaduto, atendendo a imprensa ao mesmo tempo em que dava ordens aos seus subordinados.
– E o presidente da Companhia, Fausto, ele já sabe do que ocorreu aqui?

– Não. Ele está em Brasília. Vou tentar ligar.

– Fui ao apartamento da secretária do presidente, a Jeannette Panzarella, uma egípcia muito bonita, que morava ali perto e consegui ligar para o Evandro Figueira Paiva, o presidente. Já era inicio da madrugada. Quando ele atendeu,  disse que estava na residência da secretária dele. Ouvi um sorriso meio irônico, mas logo contei os fatos a ele, que só pode voltar no dia seguinte por falta de voo na madrugada. Nem Cristo fez o presidente Evandro desembarcar em Congonhas e ir direto ao viaduto. Primeiro ele seguiu para a sede da Comgás, na rua Augusta, para inteirar-se de tudo e só no dia seguinte atendeu a imprensa, sem ainda saber de quem era a culpa. O vai-não-vai durou mais de uma semana. Numa situação dessas, nenhuma empresa quer acusar a outra e muito menos assumir a culpa sozinha. As duas eram estatais.

 

2 COMENTÁRIOS

  1. kkkkkkkkkkkkkkkkk É duro as vezes não é? Mas você tem uma coisa, a qual, acho por demais virtuosa: As cargas, as quais você carrega e, carregou, foram devidas, ao tamanho da sua força. É não é pequena, não ! Veja onde hoje, você se encontra. O seu sucesso hoje, repousa, em toda essa gama, de problemas, que você enfrentou e, sempre, com certeza enfrentará. Um grandessíssimo abração amigo FAUSTO CAMUNHA.

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