DE NOVO UMA SECRETARIA por Fausto Camunha

DE NOVO UMA SECRETARIA por Fausto Camunha

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Em 1998,  retornei à Secretaria de Esportes, desta vez da Prefeitura.  Foi assim:  em junho,  Oscar Schmidt , que era o secretário, anunciou  que ia deixar a Secretaria e candidatar-se ao Senado. O Renato Elias, que já trabalhava comigo em outro projeto de esportes do município, correu e foi falar com  o José Blota Neto, que era  o chefe de gabinete.

– Blota, temos a pessoa ideal para substituir o Oscar.  É o Fausto.

Ele me chamou e perguntou se eu toparia ser secretário de novo. Junto  com ele, insistindo muito, o André Nogueira. Resumindo, o Blota levou meu nome ao Oscar, que falou com o prefeito. Argumentaram que eu já tinha sido secretário da mesma Pasta no Estado e que seria uma ótima solução caseira.

Meu nome vazou na imprensa, veio a turma do contra, os dias foram passando e o prefeito Celso Pitta acabou me chamando. Ele conversou muito comigo e sabia da morte recente do meu filho.  Disse que seria muito bom para a minha cabeça e que ele ficaria muito feliz se eu aceitasse, pois traria para a Prefeitura toda a experiência adquirida no Estado. Não é toda hora que se recebe um convite desses, mas sinceramente eu não estava confiando muito em mim,   pois ainda estava me recuperando. Falei  com o Oscar de novo – que figura maravilhosa o Oscar –  com o Blota e principalmente com a minha família. Voltei ao Palácio das Indústrias e disse sim ao prefeito.

No começo, qualquer evento com jovens  mexia muito  comigo.  Procurava evitar, mas não dá pra ser Secretário de Esportes e ter essa limitação. Fui me soltando aos poucos. Comecei pelas escolinhas de esporte, de novo.  Eram 10 e  em pouco tempo inaugurava a centésima. Todas no mesmo estilo da Secretaria Estadual: os patronos eram os antigos ídolos do futebol. Abri também escolas de boxe, atletismo, volei e  e basquete. Fazia parcerias com as Secretarias de Educação, Saúde, Desenvolvimento Social e Cultura. Com muita dificuldade, pois os recursos eram poucos, reformei alguns centros esportivos. Realizamos eventos  em muitos bairros da periferia e também no centro de São Paulo. Nos finais de semana o Pátio do Colégio virava praça esportiva para jogos de volei, basquete, box e tênis de mesa. Sempre, junto comigo, um ídolo de cada modalidade. E uma obra da qual me orgulho muito: o Parque das Bicicletas, na esquina das avenidas Ibirapuera e Indianópolis.

Um dia, vendo televisão em casa, me deparei com uma ex-moradora de rua que tentava ser maratonista. Foi em um telejornal da Band. Seu nome, Ana Luiza dos Anjos Garcez, 36 anos. Pedi à assessoria que localizasse a moça, tarefa feita rapidamente. Ana Luiza chegou meio desconfiada. Conversamos bastante. Ela contou sua história desde os tempos da FEBEM, onde foi deixada por sua mãe, ainda bebê. Cresceu e na primeira oportunidade fugiu. Foi morar na rua, onde aprendeu tudo o que não devia. Roubava, assaltava, usava drogas. E corria muito… sempre da Polícia. Disse que era vidrada no filme Carruagem de Fogo e que tinha muita vontade de ser atleta.

Convidei a Ana Luiza para morar no alojamento do Centro Olímpico, o que ela aceitou, sem pestanejar. Levou consigo poucas roupas – mas todas para a prática esportiva – e já algumas medalhas e troféus. Bem instalada, foi assistida por médicos, dentistas, técnicos desportivos, psicólogos. Todos dispostos a fazer da Ana Luiza uma grande atleta e um exemplo do que o esporte pode fazer pelas pessoas. E ela realmente soube aproveitar a oportunidade e superou-se. Ganhou várias competições aqui em São Paulo, pelo Brasil e também no exterior. Correu as Maratonas de Nova York, Osaka, Miami e Santiago do Chile.  Para o técnico Wanderlei de Oliveira, diretor da Federação Paulista de Atletismo, Ana Luiza é, hoje, aos 52 anos de idade, a melhor atleta brasileira em sua categoria. Na prova de São Silvestre de 2009, ela foi homenageada por ser um exemplo de superação no esporte e na vida pessoal.

No inicio de 2010 participou, no SBT, do programa “Nada além da verdade”, do apresentador Ratinho. Respondeu a todas as perguntas com muita precisão e sinceridade e acabou ganhando o prêmio máximo do programa: 100 mil reais. A última pergunta era uma “pegadinha”, segundo o próprio apresentador.

–  Ana Luiza, com todo o seu sofrimento, cuja história agora já sabemos, você acha que o seu anjo da guarda a abandonou?

– De jeito nenhum. Eu não estaria aqui se ele tivesse me abandonado!

Saiu de lá muito cumprimentada, irradiando o otimismo de sempre. Carinhosa com as pessoas de quem gosta e arredia com estranhos, “Tia Punk” ou “Animal”, como ela gosta de ser chamada, costuma visitar seus antigos companheiros de rua, mas agora são muito poucos.

– A maioria morreu, conta ela, choramingando.

 

4 COMENTÁRIOS

  1. Por obra do destino,conheci o Fausto pouco tempo depois de também ter perdido meu filho mais velho em um acidente de carro e nus tornamos grandes amigos. Fausto e Lídia conheceram Maceió e sempre vinha passar ferias aqui. Minha filha se formou em direito e foi para São Paulo fazer pós graduação.Fausto e Lídia a convidaram para ficar em seu apartamento. Conseguiu para ela trabalhar no escritório de advocacia Pinheiro Pedro na área de Direito ambiental. Fez mestrado , casou e hoje mora em São Paulo. Para terem uma ideia, cinco anos atrás tive um câncer de laringe e quem me socorreu foi o Fausto que também me recebeu após a cirurgia em seu apartamento onde passei quase dois meses em sua residência ate me recuperar. São poucos os privilegiados de ter um amigo como Fausto e Lídia.Sinto-me um privilegiado.Agradeço à Deus por ser seu amigo.

  2. O FAUSTO CAMUNHA é uma enciclopédia de vida pública ! O que eu admiro nele é que, conviveu, com situações, envolvendo pessoas e atividades, onde não haviam, perspectivas fáceis, de serem serem aproveitadas, tendo em vista, escassos recursos, tanto materiais, como humanos, na área de Secretaria de Esportes, neste país. É uma área, tal qual a Educação ou, também, da Saúde, onde instalações;equipamentos;corpo docente e recursos, não são bem vistos, por todos os que ocupam cargos de Governo, tem a decisão de, na vida pública, tanto Municipal até a Federal, elevar essa atividade à patamares iguais às outras nobres, da vida pública, uma vez que Esporte, para mim, é Cultura e, sobretudo Saúde, na mais alta concepção da palavra. Povo que não ” corre ” é um povo doente. Um grande abraço amigo. A pessoa certa, nos lugares certos.

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